Embrulhada em dores e desespero, a minha mãe trouxe-me ao mundo e a esta vida sem saber que esteve prestes a regressar a casa sem mim e com uma pesarosa história para contar.
Ainda assim, mal o dia começara, um dia igual a tantos outros, já eu não queria desistir do que viera cá fazer.
Uma vez que tinha feito a viagem não a quis dar por perdida e, segundo ela, agarrei-me à vida com “unhas e dentes” (que não tinha!), presos ao frágil corpo que me emprestaram, e continuei a trilhar caminho, decidida a não desperdiçar esta fantástica oportunidade!
Talvez por isso, não sei bem, quem me conhece sabe que não cheguei a esta vida só para me ver e ver os outros, na esperança de que algo, exterior e distante, acontecesse neste gigantesco jardim que nos acolhe.
Não tenho palavras para agradecer! Pois hoje, volvidos uns quantos anos, essa ânsia pela vida não só não se esgotou, como cresce sem medida!
Uma casa, muitos livros…
Nos dias em que podia fazer serão, na minha consumpta adolescência, os livros apaziguavam a minha alma desassossegada. Ler era uma paixão e escrever tornou-se rotina. Pegava em folha e caneta e de braços dados com o silêncio, na companhia da noite, rabiscava pensamentos.
Estranhos e açambarcadores, assim eram esses escritos que se emaranhavam no meu corpo e me faziam regurgitar palavra atrás de palavra, com se para respirar eu precisasse de as pronunciar.
E a vida desenrolava-se entre cada estação na esperança de encontrar sonhos e muita ação.
De pés juntos no chão, com os olhos posto no topo da estante, via o meu pai guardar os livros, com alma e coração. Eu olhava para ele e, com um sorriso de glória, implorava em silêncio uma história, uma história…
Completamente ao acaso, ele esticava um dos braços e retirava com cuidado um dos livros para uma sessão. Ah, abençoada casa essa que mesmo não sendo rica, era farta de pão e de muita imaginação!
“Ah que desperdício de vida!”, suspiravam os amigos, longe eles de imaginar que a chama que trazia só não se pagava porque… lia!

“Uma vida sem livros é como um corpo sem alma”, Cícero
Uma escada para subir…
Na minha efémera existência, decidi que haveria de me dedicar a atividades que me dessem vida e muitas histórias para contar.
Para crescer como as árvores e deixar na terra as minhas raízes, decidi escrever para me entreter e também para mostrar tudo aquilo de que sou capaz!
Crescer, de preferência, sem tecto à vista e a plenos pulmões, no mundo da comunicação, investindo nos outros e na mútua compreensão.
Tenho conversa “para dar e vender” e sonhos por realizar numa vida escancarada. De tão pequeno que é o lugar que os acolhe, tenho meditações que não consigo esconder e fantasias por desvendar.
No outro dia, deram-me uma escada para subir e, sem deitar muitas contas à vida, lá me vou espraiando, devagar, devagarinho neste soberbo caminho!
Só espero que me acompanhe e que nunca se perca, em altaneiro estandarte, mas sem grandes alaridos, o engenho e a arte!

DEIXE UM COMENTÁRIO