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Na mesa pode construir-se um mundo,
sim na mesa, e nem sequer importa se é redonda ou com bicos – estar à mesa, a comer ou a conversar, a jogar ou a namorar, a discutir ou a negociar, é um ritual que não pode perder-se.
Jamais! Nos tempos que correm é cada vez mais usual dispensar-se a mesa, que inclui o descanso de estar sentado, quer pelo frenesim das jornadas quer pelas modas: a agitação do trabalho inibe a que as pessoas se sentem para fazerem as suas refeições ou até para concluírem negócios e o design das cozinhas passa muito pelos balcões, até porque raramente a família se reúne para conversar.
Como contornar este flagelo da ausência da mesa?
mesa como uma doutrina – eu sou pela mesa como uma doutrina a seguir, incutir desde cedo nas gerações tenras o conceito de reunião à mesa: reunir para comer; reunir para conversar; reunir para namorar; reunir para negociar; reunir para rir; reunir para chorar.
A mesa é o local onde se reúnem tanto os afectos como os negócios – a mesa é uma espécie de colchão privado e público também. Onde é que se fecham os grandes negócios – não é sempre, ao almoço ou ao jantar, na mesa?
Os grandes empresários, carregados de papéis e malas brilhantes, tenho a certeza de que já viu, a dirigirem-se ao restaurante e depois quando saem a expressão leve e consolada: forraram o estômago ao mesmo tempo que lavaram – ou sujaram, isso agora nunca se sabe – a alma.
Quando vai tomar um chá e conversar não é mais feliz? E aquele café com os amigos? Nas famílias nota-se bem quando a mesa faz parte da mobília: são todos mais alegres e serenos mesmo que discutam às refeições.
Há uma espécie de magia à mesa, nunca notou?
Comecemos pelo princípio: uma mesa tem de ser bem posta, não há cá uns pratos desiguais em cima de umas bases velhas a servirem de apoio a talheres manhosos, com charme (e o charme não é complicado e adora simplicidade, estou a avisar), bom gosto. Para isso é preciso tempo e dedicação, claro, como em tudo na vida. Pois. É isso que insistem em dizer que não têm, não é? É mesmo muito simples escolher a toalha ou as bases sempre limpas e ter os pratos e talheres em conjunto à mão; os guardanapos podem ser de papel e estarem já bem dobrados (pode fazê-lo enquanto vê um filme) e colocar uma fruteira bem composta, ou uma jarra com flores, sempre na mesa.
Isso custa alguma coisa a não ser bom gosto e boa vontade? Depois é só cultivar o ritual, retirar a televisão da cozinha, ou desligar a da sala enquanto está na mesa, e tudo começa a entranhar-se. As conversas e as discussões, vai ver que a discussão é uma variante fogosa da conversa, começam a fluir – assim como as brincadeiras e os risos, ou os choros, e o seu dia terá outro encanto. Vá por mim, o universo da mesa é infinito – e infinitamente belo.

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