Sublime, o belo criado no vazio da existência – suprema obra divina
Para os clássicos, o sublime é quando o Homem se depara com sua insignificância, tamanho diminuto, frente à grandiosidade da natureza. Para alguns, neste momento o conceito de sublime, necessariamente implica na existência de perigo iminente que define a supremacia da obra divina sobre a obra humana. Para outros basta a magnitude infinita de horizontes. Para todos o sublime é belo em seu portento.

Neste quadro de Friedrich, onde o homem, diminuto ser humano, olha em frente, horizonte e alturas, nuvens e desconhecido, a imensidão da natureza que o rodeia. Não teme, respeita pois sabe que não terá esperanças se cair nas profundezas do abismo. O universo e sua imensidão se contrapõem à realidade humana restrita à desde a pedra que o sustenta sobre as nuvens.
Em artigo de Maria Costa de Araújo e Silvana B. Macedo, diz-se que: “O sublime, como o vazio, é um conceito emblemático, e, por sua complexidade, não pode ser definida de forma direta, estável ou simplificada. (…) designa algo excelso, eminente ou sumamente elevado, e se aplica tanto a fenômenos naturais quanto a ações humanas (…) e que “neste sentido, são sublimes um furacão, uma catarata, o céu estrelado ou o imenso deserto, assim como o comportamento dos homens que arriscam ou sacrificam sua vida por uma causa nobre” (VÁZQUEZ, 1999, p. 231).
Em Philip Shaw, da Universidade de Leicester, encontramos os aspectos históricos de o Sublime, conceito primeiramente levantado em Peri Oyouz (Sobre o sublime), tratado estético atribuído ao grego Dionysius Longinus, século I, traduzido por Nicolas Boileau em 1674 como “Du Sublime”. “Para Longinus, o discurso do sublime, seja oratória política ou verso épico, trabalha para superar os poderes racionais de sua audiência e persuadi-los da eficácia de uma idéia, por meio de força retórica absoluta (SHAW, 2006, p.4-5). Portanto, para os gregos, o conceito do sublime é pensado em termos de idéias ou ações humanas, ao invés de se referir a fenômenos naturais. Por isso, sublime é a ação do herói histórico da Odisséia, sublime a abnegação de Penélope e seu bordado. Não o é a natureza, criada no mundo para deleite e usufruto do Homem que a domina.
Tempos depois o conceito de o Sublime é associado à pintura de paisagem dos artistas românticos, como Gaspar David Friedrich, Joseph Mallord, William Turner e Samuel Palmer, que viam na paisagem a possibilidade de representarem o transcendental, o enigmático, a “inquietante percepção do tempo e de sua passagem” (BECKETT, 2002, p. 271).
Na atualidade os pesquisadores se apropriam destas reflexões para conceituar O Sublime.
Márcio Seligmann-Silva nos fala de dois Sublimes: um, “sensualista”, representado pela obra de Burke; outro, “espiritualista”, em Mendelssohn. Diz Seligmann-Silva que, segundo Burke, o sublime não pode ser conceitualizado, pois se trata do inominável, a manifestação do ilimitado. Afirma Burke que trata-se da dor e do perigo ligados à preservação do individuo, fontes de o Sublime, sendo o terror uma das mais fortes emoções que prende a mente humana. De acordo com Burke:
Nenhuma paixão despoja tão completamente o espírito de toda a sua faculdade de agir e de raciocinar quanto o medo. Pois este, sendo um pressentimento de dor ou de morte, atua de maneira semelhante à dor real. (BURKE, 1993. p. 65/66).
E, refletindo sobre a relação do sublime com a ausência, diz:
“Todas as privações em geral são grandiosas, porque são todas terríveis: vazio, trevas, solidão e silêncio” (BURKE, 1993. p. 76).
Já o sublime “espiritualista” de Moses Mendelssohn, considerado um dos principais teóricos do conceito na Alemanha (1758) se apresenta como “categoria que tende mais a ser tratada como uma manifestação do infinito enquanto uma entidade superior, vale dizer, divina” (SELIGMANN-SILVA, 2005 p. 35). É o sublime como grandeza que “não pode ser abarcada de uma só vez pelos sentidos”, cujos horizontes e limites são inimagináveis. Também para Mendelssohn a ausência é fonte do sublime, mas “como um desvio de norma e como algo que nos leva para fora de nós mesmos; algo para o qual “não temos palavras”” (Idem, p. 35).
Em Kant vemos que “distingue dois tipos de sublime: o matemático, constituído pela experiência do objeto que não cabe nos parâmetros antropomórficos, e o dinâmico, gerado pelo espetáculo de uma força que não cabe igualmente dentro dos padrões de medida convencionais” (FABRIS, 1996, p. 10). As reflexões de Kant são hoje a base para novas reflexões.
“Em ambos, a emoção é muito agradável, porém distinta. O sentimento do sublime pode conter um misto de impressões que pode ver no horror de uma tempestade, a beleza da força dos ventos, enquanto o sentimento do belo é a captação de uma imagem, de uma cena, de uma paisagem que se mostra a nós. A noite é sublime, o dia é belo. O sublime comove, o belo encanta. O sentimento do sublime é sério, as vezes perplexo e assombrado, enquanto o sentimento do belo se manifesta pela alegria, pelo júbilo. O sentimento que acompanha o sublime é por certas vezes de certo horror ou melancolia, denominado de sublime terrífico; em outras vezes, simplesmente uma admiração silenciosa, denominado de nobre; outras vezes pode ser de uma beleza que se estende sobre um terreno sublime, denominado de magnífico. A profunda solidão é sublime, mas terrífica. O sublime deve ser sempre grande, já o belo pode ser pequeno, o sublime deve ser simples, o belo pode ser adornado e ornamentado. Uma grande altura é tão sublime como uma grande profundidade, entretanto a segunda é acompanhada de uma sensação de estremecimento, portanto é sublime terrífica, e a primeira sensação pode ser de admiração, portanto nobre. Um largo espaço de tempo é sublime, se pertence ao passado é nobre, se é uma projeção incalculável do futuro, contém algo de terrífico” (Immanuel Kant in Observações sobre o sentimento do belo e do sublime)
A modernidade define e pinta o sublime em seu vazio natural:
[…] Newman perseguiu sempre o sublime, o visionário, abordando os mistérios de uma criação, uma divindade, da morte e ressurreição, assim como as referencias paisagísticas de seus títulos – Luz do horizonte, tundra – pertencem às experiências dos confins da natureza que para os românticos haviam sido metáforas de mistérios sobrenaturais (IDEM, p. 239).
E Philip Shaw diz:
“o objetivo do sublime é sustentar uma sensação de choque, de prevenir o leitor/expectador/interpretador de chegar a um entendimento com o que excede a norma. Se o objetivo do Romantismo é de alguma forma incorporar o “senso sublime”, o pós-modernismo, em contraste, procura manter um senso do sublime como outro, como “algo” que nunca pode ser “captado” pelo uso de metáforas, símbolos ou conexões verbais”. (SHAW, 2006, p. 9)[1].
Shopenhauer fez uma lista de etapas intermediárias do belo ao sublime:
1. Sentimento de beleza – a luz refletida em uma flor (prazer da percepção de um objeto que não pode fazer mal ao observador).
2. Sentimento muito frágil do sublime – a luz refletida nas pedras (prazer da observação de objetos que não supõem uma ameaça, mas carentes de vida).
3. Sentimento frágil do sublime – o deserto infinito sem movimento (prazer pela visão de objetos que não podem abrigar nenhum tipo de vida).
4. Sentimento de sublime – natureza turbulenta (prazer pela percepção de objetos que ameaçam com provocar danos ou destruir o observador).
5. Sentimento completo do sublime – natureza turbulenta e opressora (prazer pela observação de objetos muito violentos e destrutivos).
6. Sentimento mais completo do sublime – a imensidão da extensão e duração do universo (prazer pelo conhecimento do observador de sua própria insignificância e unidade com a natureza).
Zion, Utah – morada dos deuses. A grandiosidade das montanhas rochosas no deserto de Utah, a cidade prometida de Zion. O observador, nós, que olha esta fotografia, em pleno inverno, escarcha, gelo, céu azul, frio, sente o arrepio da solidão gelada, e se depara com sua própria dimensão humana.
Sublime Sinfonia, Ode à Vida
Deserto, terrível – sublime na sua imponência magestosa, na sua energia aplastadora da vida que esconde a vida. Imagem que diz, seja respeitoso com o meio ambiente, você é só um mero ser humano, mais um dos seres vivos deste ecossistema planetário.
A divina criação, impossível de ser reproduzida, que nos remete ao nosso “real tamanho”.
Pitoresco – a imagem que nos remete a memórias ocultas na simplicidade da vida diária.
O pitoresco é aquilo que nos lembra o jardim da avó? O detalhe da hortência em flor, o cheiro das ervas de tempero, a tranqüilidade de uma tarde de primavera após o lanche com bolo e suco? Tudo isso é pitoresco!
A paisagem da pousada do Verde, nas Terras Altas da Mantiqueira, uma imagem que agrada e tranquiliza. Assim também a estradinha no sul de Minas, rumo à Passa Quatro de nossas férias. Uma reta, o sol se pondo, um caminho de lembranças de outras férias. Isso é pitoresco!
Farol da barra que nos protege nas tempestades, sempre girando, alumiando os barcos em alto mar, protegendo as navegações dos arrecifes pontiagudos? Pitoresco!
Belo é o que? – criações divinas, sempre belas, tenham as funções que tiverem, pertençam às espécies que pertencerem. Belas, simplesmente belas!
Perfeição de formas e momentos, síntese da energia de criação. Fogo que gera a vida. Assim são as pétalas das flores, as crianças do mundo e as borboletas da mata. Perfeitas em sua concepção, perfeitas em sua simetria, em suas medidas, dimensões correlacionadas. Portanto, inerentemente, belas.
Água viva, mortal, bela, venenosa, bela, minúscula, bela, simplesmente bela!
Koala – belo exemplar carinhoso da nossa fauna terrestre. No imaginário infantil é carinhoso, cuidadoso, amoroso, então, só por isso, torna-se pitoresco também!
A dança dos pingüins (Pingüim Imperador) sobre o pedregoso solo da Antártida – belíssimo!
Papoulas nos campos da Holanda – belas, tranquilas, singelas. É belo!
Nesta foto de Cristina Branco vemos um por do sol em Cascais, Portugal. Para os portugueses e todos os povos historicamente navegantes todo por do sol é belo e pitoresco e, também, por vezes, sublime. O por do sol de qualquer região será sempre belo, pois que a beleza natural, equilibrada, divina, sensível, nos encanta e, imbuídos desse encantamento consideramos o mundo belo; também todo por do sol pode ser considerado como pitoresco, já que sua observação nos remete às memórias ancestrais de liberdade, tranqüilidade, largueza de horizontes e conforto pois para exercer a contemplação é preciso estar em equilíbrio, como após um dia bem vivido e, finalmente, também pode o por do sol ser considerado como sublime, pois nos remete, como obra de arte de criação divina, à considerações sobre o nosso tamanho diminuto frente à natureza que nos cerca. Considerando o sublime como aquela imagem que nos remete, por sua força, magnitude, esplendor divino, às reais proporções humanas e que, muitas vezes, nos recordará do risco iminente de se caminhar sobre a terra, de se enfrentar seus desafios, então, posso considerar o por do sol também como sublime em função da sua representação de paz após batalha, risco permanente de faltar, energia absolutamente indispensável à vida e à permanência da humanidade na sua nave estelar. Quando podemos, com tranqüilidade, observar um maravilhoso por do sol significa que o risco real está amenizado, oculto, porém evidente.
Referências Bibliográficas:
AMADO, Guy. O sublime no extremo. Revista Número. São Paulo, n. 8 novembro, 2006.
BECKETT, Wendy. História da pintura. São Paulo: Editora Ática, 2002.
BERLINCK, Luciana Chauí. A Sociedade do Narcisismo e da Melancolia. Cult. São Paulo: ano11, n. 124, mai. 2008.
BERMAN, Marshall. Tudo que é solido desmancha no ar. São Paulo: Companhia Das Letras, 1986.
BURKE, Edmund. Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas idéias do sublime e do belo. São Paulo: Papirus, 1993.
FABRIS,. Prefácio. In: COSTA, Mario. O Sublime Tecnológico. São Paulo: Experimento, 1995.
KONESKI, Anita. Blanchot e Levinas e a arte do estranhamento. Florianópolis, 236 f., Tese (Doutorado em Literatura) – Centro de Comunicação e Expreessçao – Universidade Federal de Santa Catarina. Site: http://www.tede.ufsc.br/teses/PLIT0285-T.pdf
ROSENBLUM, Robert. La pintura moderna y la tradición del romanticismo nórdico de Friedrich a Rothko. Madri: Alianza. 1993.
SHAW, Philip. The sublime: the new critical idiom. Oxon: Routledge. 2006.
SELIGMANN-SILVA, Márcio. Do delicioso horror sublime ao abjeto e a escritura do corpo. In: SELIGMANN-SILVA, m. O Local da diferença. São Paulo: Ed. 34, 2005
SOLER, Eduardo Pérez. Ironia versus sublimidade. Lapiz. Madrid: n. 123, 1996.
TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o tempo. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Sublime. In: VAZQUEZ, A. S. Convite à Estética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.

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