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Mexer com o barro – experiência de mergulho em si mesma

29 de March de 2019 by ABW Leave a Comment

Barro
Fonte: http://4.bp.blogspot.com

 

 

 

 

 

 

 

O diálogo com o barro “É no contato com a massa fria, escura que entramos no espaço silêncio do barro para “dar forma à verdade interior, libertando o ser das amarras do mundo imaginário restrito. A energia em movimento amplia consciência e resgata a vocação da alma” (CHIESA, 2004, p.105)

I.- Criando o mundo.

Começou assim, uma experiência de transdisciplinaridade, um tocar ainda que “a medo” na massa fria da argila que a Regina nos trouxe para a aula. Estranhei, me recolhi, não gostei do toque frio e sem vida, do material cor de tijolo, não de terra, do material ultra-fino, sem granulação aparente e, principalmente, sem cheiro. Um absurdo.

Era a argila disponível, cerâmica da melhor qualidade para produção de objetos finos, para quem os sabe fazer, claro.

Bom, estava lá para vivenciar uma nova experiência. Respirando pausadamente me centrei, estabeleci, de novo, o eixo que me conecta da Terra ao Universo, que me conecta a mim mesma, UNO SER. Voltei a sentir o calor do fogo interno, primordial, que habita a kundalini, coluna vertebral deste corpo-matéria que uso agora.

O barro é vermelho, macio, fresco, suave, maleável sem ser rude, aceita algumas pressões, outras não. Que nem eu – pois o mergulho interno começa assim que a repulsa de manusear a massa fria é superada – que também aceito algumas, não todas, pressões que a vida me traz.

Bato a bola de barro, cedendo aos pedidos e indicação da Regina. Não bato forte, para tanto ainda não tenho coragem, força interna. Amasso, amasso, quase que pedindo desculpas por tanta violência.

A bola, vermelha, quase mais que perfeita, é o primeiro resultado, ovo de luz azul e amarela quando pousado na mão direita e, vermelho e laranja, quando na mão esquerda assenta.

Sobe no ar: testa, coroa – seu tato é calmante, afinal, calmante e equilibrante. Passou finalmente a sensação desagradável do primeiro contato parágrafo.

Fazer uma “bola perfeita” é tarefa surrealista. Toda perfeição tem suas rugas, marcas e cicatrizes. Como eu!

O resultado final é uma figura orgânica, de várias cores, tons, sensações. Formas soltas, livres, conjugadas num núcleo central.

Somos criadores! Percepção, nível de consciência, para podermos criar vida.

Aquietar a mente! Deixar o que se sente vir à tona.

Com o barro se faz a integração das energias, céu e terra, ser e essência, alma e corpo, criando um canal único de integração com o Universo.

II. – Cumbuca de barro, a criação do mundo:

Essa argila de hoje mexeu com minhas energias de forma explosiva: calor, fogo – as águas evaporam, sinto muito calor mesmo, e o tempo está frio lá fora.

Esse material é terracota. Também não lhe sinto o cheiro mas a colega diz que sim, que tem, eu é que não sei ainda sentir. Quem sabe.

A bola de argila é pesada, maior do que minhas mãos conseguem manipular de maneira confortavelmente.

Desta vez, bater a argila foi gostoso. É todo um processo de abertura, de perder os medos de machucar aquela massa que tenho nas mãos para modelar o que minha criatividade mandar. Bati sem dó, forte, no chão.

A bola redonda rola, confortável, no meu braço esquerdo. Agora o frio é agradável, carinhoso até, suave. O corpo queima, a argila absorve e apazigua. No braço direito, não! Incomoda: o contato com a massa suave e fria se torna desagradável, inseguro. Me retraio.

A forma veio sozinha. As mãos afundaram a massa moldando, moldando – pensei, será que vai ser um túnel? Ufa, virou uma cumbuca para as ervas de cura da Vó Mariana do Congo.

Mexer no barro trabalhado em casa, buscar o elemento ar, isso foi difícil. Tive de vencer barreiras, preguiça, medo de estragar, falta de vontade de aprofundar as descobertas. O mais difícil é se encontrar tempo bom para um mergulho interior que a gente sempre deixa para depois.

E, esse mergulho é tão importante.

Os 4 elementos e o barro
Fonte: http://1.bp.blogspot.com

Quatro elementos básicos direcionam a vida – fogo, terra, água e ar. No barro, que já é vida em si, começa meio ao contrário: terra, água, ar e fogo. Isso me deixa confusa. Não é a forma clássica que eu entendo o movimento do Universo em sua criação. Mas…, enfim, com o processo em andamento percebo que tem sua lógica, de continuidade pois que a argila já é, na verdade, um subproduto de um processo criativo, já passou pelo fogo, na formação da rocha que depois, erodida, virou terra, no fundo da Terra, que juntou com a água e, separando os minerais feldspáticos – bonito nome que me lembra o verde azulado – decanta em limo fino, material de granulação suave, uniforme, aglutinante por si só.

A metamorfose é parte do processo tanto do barro, da peça, como o nosso. Descobrir nossa essência no mundo, o mundo no nosso eu. Meu mundo, descobri, uma caverna quentinha, com sua bica de água pura que cai na bacia de pedra lá colocada por Deus, tenho certeza. Aberturas ao sol nascente, ao poente, ao horizonte de verdes matas e céu azul. Alta, sobre as nuvens, visitam a gruta mundo os pássaros das alturas, águias e gaviões, condores sublimes que buscam a eternidade.

Mineral, vegetal, animal – todos os reinos estão contidos em nós, cada um com seu significado interno e sua aparência externa. O processo idealizado por Regina Chiesa nos levará até o abstrato da forma, Akasha suprema, o UNO onde tudo se integra.

Um seixo rolado, arestas amansadas, pedra de rio que não chega ao cristal primário, ainda. Sou pedra rolada, amansada pelas águas de um rio de correntes que corre entre pinheiros enormes, encachoeirando aqui e ali.

Um tronco de árvore cortado, ainda vivo, de uma corticeira ou talvez de um carvalho, que rebrotará na próxima primavera estendendo seus novos ramos para o céu azul e suas raízes para o interior da Terra.

Desmancha tudo, amassa o barro e vê que mais surge, agora buscando a forma do reino animal com a qual me identifico. Transforma-se em um castor, ou um ratão de banhado, simpático, de rabo grosso e achatado. De repente aparece a cara de um urso, uma ursa em pé. Finalmente a argila para de se transformar nas minhas mãos e surge uma esquila: fêmea, já velhota, gorducha, de cauda gorda e fofa, risonha e cheia de ruguinhas na barriga. Alegre e sábia como toda esquila bem vivída.

A sensibilidade que um objeto feito à mão nos transmite poderá ser aprofundada indo muito além da questão estética e funcional. Ele tem alma. (Chiesa, R., texto O BARRO E A INTERAÇÃO ENTRE OS QUATRO ELEMENTOS DA NATUREZA: ÁGUA, TERRA, FOGO E AR.)

Desmanchar a forma animal para construir a forma abstrata não me foi possível. A modelagem da figura abstrata não me diz nada. Como se não pertence-se a esta sequência atual de faz e desmancha, modela e remodela. E a esquila, velhota, sorridente e sábia, tem vida, própria dela, que veio com os seus 10 buraquinhos naturais que todo ser vivo possui. Brinquei de Deus, dei vida ao barro, mas não posso destruir o que criei pois a criação tem livre arbítrio. Ao concluir seus buraquinhos, vi que os olhos da imagem já brilhavam, emitindo uma energia azul, fina, reconfortante. É ela, a esquila que me acompanha nesta jornada de auto-conhecimento.

III – Abstrato, o SER UNO, Universo, Espírito:

Cerâmica - Barro
Fonte: www.lanciatrendvisions.com

O abstrato surgirá depois, no seu tempo certo, depois de refazer o mundo, gruta do confortável ser.

Finalmente o processo do fogo interno está se apaziguando, a temperatura corporal volta ao normal, o suor deixa de correr pelas minhas costas e consigo normalizar a respiração.

Enfim, na sequência dos trabalhos refaço os caminhos todos da criação, sem desmanchar os objetos que tomam forma nas minhas mãos: concha de ostra é o mundo, pedra e tronco, e agora uma velha tartaruga se apresenta também, até a transformação de tudo isso na concha de um grande caramujo dentro da qual se pode ouvir o barulho das ondas do mar. De uma concha à outra, sou mesmo filha das águas de Iemanjá. Confirmado.

E mais uma vez surge, do abstrato, a gruta, conforto interno, essência em forma, o mundo que habita em mim e no qual eu habito. Me encontro no Universo, no meu SER, EU SOU. O futuro me espera para novas experiências e reconhecimentos de caminhos novos no entanto reconhecidamente antigos, ancestrais.

Já posso seguir para o elemento fogo, agora o externo: a primeira queima, no forno da Regina, acontece no suspense (não participo) e levo um susto quando vejo a cor que resulta da argila queimada – não esperava o laranja forte, vibrante, quase sintético. Vamos para a segunda queima, o rakú. Suspense também, susto, calor insuportável e suadouro – muita água e muito fogo, não aguento ficar perto, mas fico, e queimo uma peça ou duas. Não gosto do resultado. A minha finalização ainda tem processo, ainda precisa de aprendizado. Afinal, é um processo que está apenas começando, o da busca de si mesma,o da cura de si mesma, o reencontro com a essência divina. Depoimento, testemunho ou simples relato, confesso que este foi um processo muito importante para as minhas descobertas – lidar com os 4 elementos, mão na massa, na terra, na água, no ar, e o fogo, no final, consumindo os excessos, ajustando os componentes, burilando a matéria.

Assim, parafraseando o texto de Regina Chiesa que norteia nosso curso, concordo com Ferreti quando afirma que “Quando essa porta se abre, o colorido do mundo se modifica e, ao entrarmos em contato com esta realidade, descobrimos o caminho da cura de nós mesmos e do mundo” (Ferretti, 1994, p.13).

A porta se abriu, agradeço a todos os que me empurraram para ela e, principalmente, aos que me acompanham nesta caminhada sem fim.

Textos citados:

CHIESA, R. F. O Diálogo com o Barro o Encontro com o Criativo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004

CHIESA, R.F. O barro e a interação entre os quatro elementos da Natureza: água, terra, ar e fogo – (texto, apostila, do curso Arte, Ecologia e Sustentabilidade).Umapaz, 2010.

FERRETTI, Vera. Desvelando Conhecimentos. Revista Construção Psicopedagogia, São Paulo: Departamento de Psicopedagogia do Instituto Sedes Sapientiae, ano II, n. 2, 1994.

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