Pequeno entre os pequenos de 6 e 8 anos chegou aquele que mais novo era ainda. Dois meses, pequenino e já com tanta personalidade, fazia antever que os anos seguintes seriam de pulso forte.
Mudamos de casa, todos temos novos lugares, novos dias, partidas e chegadas, mas ele, o mais novo está sempre lá, à nossa espera para mais uns quantos momentos de carinho e brincadeira. É ele ali parado, aguardando a nossa chegada das horas de escola e trabalho que nos espera com a alegria de quem recebe a melhor prenda da vida.
Os anos passam, ele cresce, já se consegue ver nos seus olhos que os anos chegam com rapidez enquanto ele se torna num chefe de família, tem duas pequenas para cuidar, mais duas meninas que o seguem para todo o lado e fazem dele o seu mentor. A idade pesa nos seus olhos, nas suas pernas e respiração. Mesmo assim, o brilho do olhar mantém-se quando estamos por perto, quando dizemos o seu nome e segredamos ao seu ouvido as confissões que a mais ninguém contamos.
Um abraço quente, uma alegria permanente que do nada se desvanece apenas numa noite. Aquela noite em que a família já não era bem a que ele conhecia, mas que em torno dele se uniu só para o ajudar. “O que se passa? Porque estão todos aqui?” Foram as perguntas que vi naquele olhar, naquela noite, naqueles abraços e que não estava certa de querer responder. Não queria contar-lhe, não queria que ele soubesse, achei que seria melhor assim.
Que viagem interminável, esta, e o destino é mesmo aqui ao lado. Na chegada mais uma cara conhecida que transforma as horas seguintes num dos períodos mais angustiantes de sempre, ele não está bem e temos que tomar decisões. Olho para ele vezes sem conta, as minhas mãos tentam transmitir-lhe a força e o amor que tenho por ele, quero acreditar que tudo não passou de um susto, de um pesadelo que está prestes a terminar.
Chega a hora, chega o momento e mantenho-me acordada neste dia que não devia estar a terminar assim, tínhamos acabado de chegar e tu não devias partir.

A história do primeiro CÃO da minha vida
Chamava-se Fígaro. O meu primeiro cão, o cão da minha vida, o meu Pastor Alemão. Fruto das decisões daquela que foi outrora uma família, porque o sonho era o de ter uma casa maior e não há casa, nem lar que se construa sem um cão.
Foram dias e dias, anos e anos entre partidas e chegadas que o Fígaro conheceu duas meninas, a Micas e a Blackie, companheiras de tantas brincadeiras, companheiras de uma vida que em tudo e para tudo o seguiam.
Passaram-se 12 anos, que anos tão bons que tivemos todos juntos, ainda que não soubesse totalmente o que era amar, muito menos um ser como ele. E numa noite, quando menos era esperado, chegamos a casa, vindos das trocas e mudanças de casas entre pai e mãe e ele, ali estava, quieto, aguardando que todos o que passaram pela vida dele pudessem ajudá-lo. O que se passava? Não fazíamos ideia, mas sabíamos que não estava bem e tínhamos que nos abraçar a todos para e por ele, tínhamos que saber ser uma família nova, todos nós, os antigos e os mais recentes elementos desta nossa família. Unidos ficamos nesses momentos e unidos partimos nessa viagem que foi das mais longas desses dias, quando temos por eterno o que, ou quem, de eterno nada tem.
A chegada mais angustiante ao nosso ponto socorro, nos momentos em que mais precisámos, foi também o ponto socorro de onde já nem todos saímos. As minhas pernas, os meus ombros, todo o meu corpo pesava o triplo e custava tanto ter de o arrastar dali para fora. Não fazia sentido, nada disto tinha sentido. O sofrimento dele era atroz, via-se nos seus olhos a cada movimento que tentava fazer. Maldito e desconhecido tumor, tinhas que te apresentar assim? Quando mais nada de inteiro restava de ti a não ser os pedaços que por ele espalhaste? “Ele tinha um coração forte” foram as palavras que me ficaram depois de ter de deixar de o ouvir.
Foram dias, foram semanas em que a entrada em casa já não era igual. O que fazemos? Como agimos? O que dizemos a estas meninas que esperavam por ele? Nada, a coleira vem, pendurada nas mãos do seu mais recente e compreensivo amigo, vem assim, sem mais nada que a preencha, só a coleira e no olhar delas sabemos que entenderam o que se passou.
Um cão. O primeiro. Aquele que para sempre marca as nossas vidas e nos faz entender o quão pequenos somos quando acontece o inesperado. Nada, mas nada do que veio a seguir teve o mesmo peso, o mesmo impacto. E o que fica? Fica o amor incondicional, a alegria e a paciência que a quem quis ele soube ensinar. Fica a angústia de já não o ter, mas de o recordar com alegria e de saber que com ele e por ele, somos e seremos capazes de dar este amor a tantos outros amigos que possamos ter.
Depois dele, elas. Também elas nos ensinaram as lutas e a força que é preciso ter. Elas, duas meninas, lindas, independentes e lutadoras, também elas eu julguei eternas e, eternas estão, do alto daquele céu que agora é mais estrelado porque teve a sua chegada.


Gostei. Beijinho