Sobretudo Saber Mais Sobre Tudo

Comunidade onde podemos debater todos os assuntos, todas as matérias, todas as áreas, a todo o momento. Partilhar, debater e aprender. Saiba mais

  • ARTE
  • NEGÓCIOS
  • LAZER
  • CONHECIMENTO
  • AMBIENTE
  • DESPORTO
  • SAÚDE

Ciência versus Senso Comum, comentários a Boaventura e Nagel

4 de April de 2019 by mariaribeiro Leave a Comment

Introdução

ciência e senso comumÉ aqui exposto um pequeno debate entre Boaventura Santos e Ernest Nagel, acerca de dois tópicos bastante abordados por ambos – Ciência e Senso Comum.

A função da ciência também passa por explicar os factos de forma clara e precisa. Tais explicações, que a ciência nos vai dando, podem ajudar-nos a determinar o que poderá acontecer após algum acontecimento, a prever e, de certa forma, até a prevenir. Por exemplo, se a nossa casa estivesse a arder e se já houvesse chamas perto da porta de saída, cuja mesma tem uma maçaneta de metal, como sei que esse material é um bom condutor, ao colocar lá a mão, uma queimadura seria certa, pelo que, deste modo, já teria de tomar outras medidas.

Assim, torna-se interessante observar a forma de como estes dois tipos de conhecimento atuam no nosso dia-a-dia e até que nível os mesmos influenciam as nossas decisões.

Boaventura Santos e Ernest Nagel,

«Todo o conhecimento científico visa constituir-se em senso comum.»

Deste título de Boaventura Santos, ou deste parágrafo transcrito da obra «Discurso sobre as Ciências», poder-se-ão extrair dois termos muito importantes de definir: Ciência e Senso Comum. Ao fim ao cabo, o que são? São distintos? Relacionam-se? Ora estas são perguntas que Boaventura procura responder no âmbito desta parcela da sua obra.

De uma pequena leitura conseguimos verificar um debate interessante sobre as consequências da Ciência, entre as teorias do ambiente científico moderno e do pós-moderno. Neste sentido observa-se uma certa mutação do que é a Ciência, o que gera conflitos na sua definição, ao passo que o Senso Comum é fácil de explicar pela sua “indefinição”. Ou seja, é algo prático, mas que não segue práticas, onde apenas se orienta pelas experiências e aceita todos os pontos de vista, sem nele deter algum vincado. O Senso Comum é, portanto, uma matéria informe e varia de grupo para grupo, como é exemplo: o Senso Comum ocidental é diferente do oriental; as religiões têm Sensos Comuns diferentes, que tanto podem convergir como divergir.

Em suma, este conceito «define-se» como um padrão único para cada tipo de aglomerado de pessoas, enquanto a Ciência não ultrapassa a noção de um estudo lógico sobre o mesmo. A Ciência é tão objetiva e infinita no seu raciocínio que a sua definição será sempre limitada e incompleta, ainda que os seus critérios evoluam e se mostrem cada vez mais interdisciplinares.

Em termos de relações entre estes dois termos, assinala-se uma vitória no facto de se ter conseguido um apoio mútuo por/ para ambas as partes.

No âmbito da Ciência moderna o Senso Comum é considerado como «superficial, ilusório e falso» e, por isso, a matéria é imediata e totalmente discriminada. Já a Ciência pós-moderna, por sua vez, resgata o valor presente no Senso Comum, permitindo que as diversas formas de conhecimento interajam entre si – das ciências e do próprio quotidiano; que as ações do ser humano sejam orientadas; e que um sentido à vida seja dado – «saber viver» -, até ao ponto em que a causa e a intenção coincidam (ciência e senso comum). É neste sentido que Boaventura Santos sustenta que «a ciência pós-moderna, ao sensocomunizar-se, não despreza o conhecimento que produz tecnologia, mas entende que, tal como o conhecimento se deve traduzir em autoconhecimento, o desenvolvimento tecnológico deve traduzir-se em sabedoria de vida».

Da obra «A Estrutura da Ciência» de Ernest Nagel, expõe-se também uma opinião sobre o tópico que servirá de apoio/ debate àquilo que de Boaventura Santos se reviu – Será a ciência apenas «senso comum organizado»?

Não restam dúvidas de que muitas das ciências hoje existentes se desenvolveram a partir das necessidades práticas da vida quotidiana, por exemplo: «a geometria a partir de problemas de medição dos campos, a mecânica a partir de problemas suscitados pelas artes arquitetónicas e militares, a biologia a partir de problemas da saúde humana e da criação de animais, a química a partir de problemas suscitados pelas indústrias de tintas e de metais, a economia a partir de problemas de gestão doméstica e de organização política […]», entre outras. É certo que existiram também outros estímulos, no entanto, estas circunstâncias foram as que tiveram, e ainda continuam a ter, um dos papéis mais importantes na história da investigação científica. Neste sentido, os comentadores da origem da ciência têm proposto que se diferencie as convicções do Senso Comum das Conclusões Científicas através da fórmula que nos diz que as ciências são simplesmente Senso Comum «organizado» ou «classificado».

Neste sentido, as ciências são corpos organizados de conhecimento e onde todas elas obrigam a uma classificação da sua matéria em tipos ou géneros (como a classificação dos seres vivos em espécies na biologia). Todavia, ainda assim é claro que a fórmula proposta não exprime adequadamente as diferenças características entre Ciência e Senso Comum. Ora vejamos: os apontamentos de um jornalista sobre as suas reportagens em África por muito bem organizados que se encontrem, para o objetivo de comunicar informação, tal não implica que se converta essa informação naquilo a que historicamente se tem chamado ciência. O mesmo raciocínio se pode aplicar a um catálogo de um bibliotecário que ainda que o mesmo apresente uma boa classificação dos seus livros, qualquer sujeito dirá que o catálogo não é uma ciência.

Assim, enfrenta-se que dificuldade óbvia é a de que a fórmula proposta não especifica qual o tipo de classificação que é característica das ciências, sendo aqui o marco-problema onde Nagel se debruçou – a correlação da linguagem utilizada nos dois conceitos com a refutabilidade desses mesmos termos.

As suas explicações que complementam a compreensão da diferença dos conceitos aqui estudados – Ciência e Senso Comum – absorvem que uma característica notável de muita da informação que adquirimos ao longo da experiência comum é a de que, embora essa informação possa ser suficientemente precisa dentro de certos limites, a mesma raramente é acompanhada por qualquer explicação que nos exponha a razão de se terem dado os factos alegados – porque é que acontece aquilo que acontece? É destino? É obra de uma força superior?

«Deste modo, as sociedades que descobriram os usos da roda habitualmente nada sabiam sobre forças de fricção, nem sobre as razões que fazem que os bens colocados em veículos com rodas possam ser transportados com mais facilidade do que os bens arrastados pelo chão. Muitas pessoas aprenderam que era aconselhável estrumar os seus campos agrícolas, mas poucas se preocuparam com as razões para agir assim. As propriedades medicinais de plantas como a dedaleira foram reconhecidas há séculos, embora habitualmente não se tenha oferecido qualquer explicação das suas propriedades benéficas. Além disso, quando o «senso comum» tenta dar explicações para os seus factos – como quando se explica o valor da dedaleira como estimulante cardíaco através da semelhança entre a forma da flor e a do coração humano – muitas vezes não há testes da relevância das explicações para os factos. […]

É o desejo de explicações que sejam ao mesmo tempo sistemáticas e controláveis através de dados factuais que gera a ciência, e é a organização e classificação do conhecimento segundo princípios explicativos que é o objetivo próprio das ciências. […]».

Assim, parte-se novamente para a indeterminação do senso comum prevista por Boaventura Santos anteriormente e, agora, debatida com Nagel.

Muitas crenças quotidianas sobreviveram a séculos de experiência, o que contrasta com o período de vida relativamente curto a que estão frequentemente destinadas as conclusões avançadas em vários ramos da ciência moderna – e por isso este facto merece atenção. Consideremos um exemplo de uma crença do senso comum, como a de que a água solidifica quando é suficientemente arrefecida.

«[…] Podemos dizer que a linguagem em que o senso comum está formulado e é transmitido pode exibir dois tipos importantes de indeterminação. Em primeiro lugar, os termos da linguagem comum podem ser bastante vagos, no sentido em que a classe das coisas designadas por um termo não está clara e rigorosamente demarcada da classe das coisas que ele não designa. Em segundo lugar, os termos da linguagem comum podem carecer de um grau de especificidade relevante. Por esse motivo, as relações de dependência entre acontecimentos não estão formuladas de uma maneira determinada com precisão nas proposições que contêm esses termos.

Devido a estas características da linguagem comum, o controlo experimental das crenças do senso comum é frequentemente difícil, já que não se pode traçar facilmente a distinção entre os dados da observação que as confirmam e os que as refutam. Deste modo, a crença de que «em geral» a água solidifica quando é suficientemente arrefecida pode corresponder às necessidades das pessoas cujo interesse pelo fenómeno do arrefecimento está circunscrito ao seu interesse em atingir os objetivos habituais da sua vida quotidiana, apesar de a linguagem utilizada na codificação desta crença ser vaga e carecer de especificidade. Essas pessoas podem por isso não ver qualquer razão para modificar a sua crença, mesmo que reconheçam que a água do oceano não congela, embora a sua temperatura seja sensivelmente a mesma do que a água de um poço quando começa a solidificar, ou que alguns líquidos têm de ser arrefecidos a um grau maior do que outros para mudarem para o estado sólido. Se forem pressionadas para justificar a sua crença perante estes factos, essas pessoas podem talvez excluir arbitrariamente os oceanos da classe de coisas a que dão o nome de água, ou, como alternativa, podem exprimir uma confiança renovada na sua crença, defendendo que seja qual for o grau de arrefecimento que possa ser necessário, os líquidos classificados como água acabam por solidificar quando são arrefecidos.»

Mas então, e se um cientista for pressionado para justificar as suas premissas? Não encontrará falhas? A refutabilidade e instabilidade da ciência também acontecem.

«Na sua procura de explicações sistemáticas, as ciências devem reduzir a indeterminação da linguagem comum, remodelando-a. […] O artesão que trabalha com metais pode ficar satisfeito por saber que o ferro é mais duro do que o chumbo, mas o físico que quer explicar este facto tem de ter uma medida precisa da diferença de dureza. Uma consequência óbvia, mas importante, da precisão assim introduzida é as proposições poderem ser testadas pela experiência de uma maneira mais crítica e cuidada. As crenças pré-científicas são frequentemente insuscetíveis de testes experimentais definidos, simplesmente por serem compatíveis de uma maneira vaga com uma classe indeterminada de factos por analisar. […] O maior rigor da linguagem científica ajuda a esclarecer o facto de muitas crenças do senso comum terem uma estabilidade […] que poucas teorias científicas possuem. É mais difícil construir uma teoria que, depois de confrontos repetidos com os resultados de observações experimentais rigorosas, permaneça inabalada, quando os critérios para o acordo que se deve obter entre esses dados experimentais e as previsões extraídas da teoria são exigentes do que quando esses critérios são vagos […].»

Por outro lado, embora a maior determinação das proposições científicas as exponha a riscos [de se descobrir que estão erradas] maiores do que aqueles que enfrentam as crenças do senso comum (enunciadas com menos precisão), as primeiras têm uma vantagem importante sobre as segundas, uma vez terem uma capacidade maior para serem incorporadas em sistemas de explicação amplos e claramente articulados. Assim, ainda que a ciência corresponda mais à razão, tais proposições científicas, como têm de estar de acordo com dados da observação bem especificados, enfrentam riscos maiores de ser refutadas por esses dados; ao contrário do que acontece com o Senso Comum pois a sua refutabilidade não incide tão diretamente sobre a experiência, mas sim mais pela fé.

Conclusões – Ciência e Senso Comum: que explicações são superiores?

ciência e senso comumDeveremos assumir que as explicações do senso comum são superiores às científicas porque são aceites por mais pessoas e durante mais tempo?

Por norma somos levados a pensar que se algo tem mais apoiantes/seguidores/adeptos é mais fiável, ou é melhor ou superior ao resto que está na sua categoria. A título de exemplo serve o futebol, que prova que o maior número de adeptos não significa o maior número de
vitórias nem confirma a eficiência/ rendimento do clube. Tanto as explicações do senso comum tanto as explicações científicas são falíveis, e, deste modo, não há superioridades de uma para a outra, simplesmente são diferentes e, de certa forma, podem-se complementar. Contudo, as experiências do senso comum são subjetivas e não são exatas, enquanto as explicações científicas afirmam-se como objetivas, claras e precisas, pelo que o seu grau de exactidão não permite tanta margem para dúvidas.

Assim, as crenças do Senso Comum não estão invariavelmente erradas, nem negam quaisquer fundamentos em factos empiricamente verificáveis. Significa que, por uma questão de princípio estabelecido, as crenças do Senso Comum não são sujeitas a testes sistemáticos
realizados à luz de dados obtidos para determinar se essas crenças são fidedignas e qual é o alcance da sua validade. Significa também que os dados admitidos como relevantes na Ciência devem ser obtidos através de procedimentos instituídos com o objetivo de eliminar fontes de erro conhecidas.

«Deste modo, a procura de explicações na Ciência não comporta simplesmente o tentar obter «primeiros princípios» que sejam plausíveis à primeira vista e que possam vagamente dar conta dos «factos» da experiência habitual. Pelo contrário, essa procura consiste em tentar obter hipóteses explicativas que sejam genuinamente testáveis, porque se exige que elas tenham consequências lógicas suficientemente precisas para não serem compatíveis com quase todos os estados de coisas concebíveis. As hipóteses procuradas devem assim estar sujeitas à possibilidade de rejeição, que dependerá dos resultados dos procedimentos críticos, inerentes à pesquisa científica, destinados a determinar quais são os verdadeiros factos do mundo.»

Por fim, conclui-se que pelo novo paradigma, na aproximação de ambos os discursos, a ciência aproveitará as virtudes do Senso Comum, deixando-se interpenetrar e influenciando-o ao mesmo tempo. O que se pretende com esta ligação é que, por um lado se enriqueça a ciência, e por outro, se aproveitem os resultados apurados pela ciência para fins de transformação dos mesmos em Senso Comum.
Boaventura afirma que é necessária uma segunda rutura epistemológica, que implicasse novamente o reencontro entre da ciência com o senso comum, já que as reflexões se encontram mais avançadas do que a prática efetiva.

(este trabalho foi redigido de acordo com o novo acordo ortográfico em vigor)

Filed Under: Ensino Universitário Tagged With: bacharelato, boaventura Santos, ciência, conhecimento, conhecimento científico, curso superior, debate, decisão, Discurso sobre as Ciências, Ernest Nagel, filosofia, licenciatura, opinião, pos-graduação, Psicologia, reflexão, senso comum

DEIXE UM COMENTÁRIO Cancel reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Universidade: O salto do gigante. Como ter sucesso na transição

A entrada na universidade marca uma nova etapa da vida de qualquer estudante. A fase de transição entre o ensino secundário e a universidade pode ser um sucesso ou um fracasso dependente da fo [Continuar a Ler]

DESPORTO

Tags

actividades culturais agências de viagem alojamento alojamento mobilado para turistas Ambiente amor Arcos de Valdevez bares campos de férias colocação de pessoal Cultura defesa do ambiente desemprego estágio Europa experiências pessoais frustração férias História investigação científica livros locais de alojamento locais de alojamento de curta duração Marketing Digital mergulhadores operadores turísticos parques de campismo parques de caravanismo poluição quente e frio restaurantes saúde selecção de pessoal serviços de reservas Sociedade Spa topmic turismo Trabalho trabalho temporário turismo turismo no espaço rural veículos veículos automóveis viagens à volta do mundo água

CONTACTE-NOS

Pesquise

Copyright © 2026 · Magazine Pro Theme on Genesis Framework · WordPress · Log in