Saltam de prédios, pontes ou penhascos. Voam a partir dos sítios mais inusitados. BASE Jumping é o nome. Irresponsabilidade, alienação do real, insensatez. Será mesmo assim? No fim de contas, a disciplina e o rigor, são os adjectivos que marcam os seus melhores praticantes. Quem assim não quiser, nem pense em começar. A sigla BASE não surge por acaso. Ela significa “Building, Antenna, Span & Earth”, ou, em português, “Prédio, Antena, Ponte e Terra”. Estas são as quatro categorias de objectos de onde os seus praticantes saltam. Apesar de pouco falada, esta modalidade não é nova. Há registos de saltos de objectos fixos com pára-quedas desde o início de 1900. Frederick Law saltou da Estátua da Liberdade em 1912 e a 18 de Agosto de 1978, o americano Boenish Carl e três outros pára-quedistas fizeram o primeiro salto a partir do El Capitan (um rochedo com 910 metros de altura, localizado no Parque Nacional de Yosemite, nos Estados Unidos), nascendo nesse dia, o BASE jumping como actividade desportiva. A modalidade foi recentemente falada pelos piores motivos. Recentemente na Nazaré, morreu um base jumper sueco ao efectuar um salto a partir do miradouro, com cerca de 130 metros de altura. O paraquedas não chegou a abrir e o jovem, prestes a celebrar o seu 30º aniversário, caiu a meio da rocha e deu cerca de 50 cambalhotas, diz quem assistiu ao acidente. Mário Pardo, um praticante português, explica o que pode ter acontecido: «o paraquedas tem que abrir muito rápido porque as altitudes são baixas. Dependendo como o dobramos ele abre mais ou menos rápido – e estamos a falar de fracções de tempo bastante reduzidas, mas que fazem toda uma diferença, ou pelo menos poderiam ter feito neste caso da Nazaré.» Além disso, «há altitudes minimas recomendadas, mas nem toda a gente as cumpre. E há uma série de nuances que são particularidades importantes.»
Mário Pardo não é apenas um praticante. Ele é o primeiro BASE jumper português. Em 1998 fundou a escola de pára-quedismo “Queda Livre”, modalidade em que é campeão nacional por três vezes. Entre outras, na sua escola, dá formação em BASE Jumping. Mas desengane-se quem pensa que basta lá “ir,chegar e vencer”. Não é possível fazer um curso destes sem se apresentarem alguns requisitos e «faz um bocado parte da cultura do BASE refrear, digamos assim, o impeto de entrar na modalidade. Eu não dou cursos de BASE indiscriminadamente. Já houve pessoas que me procuraram e a quem eu disse que não. Não lhes reconheço qualidades para isso. Têm que haver determinadas caracteristicas, isto não é uma coisa para qualquer um fazer, quer queiramos, quer não. Se não se tiver este nível de rigor, as consequências são fatais. É por isso que devemos levar as pessoas a pensar bem no que vão fazer. Se realmente querem, quais são as suas motivações, para quando decidirem seguir em frente, fazerem-no com “cabeça, tronco e membros”, com uma instrução própria.», esclarece o instrutor. BASE Jumping versus paraquedismo Mário explica as diferenças mais evidentes entre as modalidades:«no paraquedismo utilizamos uma aeronave para nos lançarmos e no BASE são feitos saltos a partir de objectos fixos. A altitude também é diferente, não há prédios que tenham 3000/4000 metros, que é a altura a que normalmente saltamos dum avião. Depois, a outra grande diferença está no equipamento. No paraquedismo utilizamos duas asas (dois paraquedas), uma principal e uma de reserva, e no BASE jumping só utilizamos uma, que é equivalente à da de reserva do paraquedismo que é mais estável e sobretudo mais fiável». Numa mochila de paraquedismo vão dois paraquedas guardados em bolsas. O principal fica na parte inferior. O de reserva, alojado logo acima, fica muito mais compactado. Quando aberto, porém, ele tem o mesmo tamanho do paraquedas principal. Existem dois tipos de paraquedas: os tradicionais, em forma de cogumelo, que não permitem escolher o local de aterragem porque não podem ser manobrados pelo paraquedista (praticamente em desuso); e o paraquedas em forma de asa (idêntico a um retângulo)que já dispõe de aparatos que permitem controlar a sua deslocação para os lados, permitindo a escolha do local de chegada e por isso utilizados no BASE. Conselhos para “quem se lembra” de praticar o BASE, Mário dá-os de graça a quem quiser, advertindo que, se nunca experimentou «primeiro faça o curso de paraquedismo e uns quantos saltos tandem (a dois:o principiante com o instrutor), veja se realmente gosta e se é a “cena” dele ou dela. Depois que leia uma lista na internet chamada Base Fatalities. É bom ler isso… e depois é pensar… ». A lista a que se refere contém os nomes de todos aqueles que morreram a praticar a modalidade, desde 1981. Mas mais completa é a outra que encontramos no site da Blinc Magazine. O efeito pretendido (demover quem não tem perfil ou certezas) será mais fácil de alcançar neste site. É impressionante porque vemos fotos dos 210 falecidos e os testemunhos sobre o tipo de pessoas que eram. A história de cada acidente é contada ao pormenor e é explicado o que correu mal naquele dia. O caso da Nazaré já lá está. PREPARAR O SALTO «O primeiro local de onde normalmente, pelo menos aqueles que têm algum juízo na cabeça, saltam, é duma ponte, porque entre pilares é um local desimpedido de obstáculos. Em termos de BASE “puro e duro”, a ponte é a mais favorável», explica o instrutor. De qualquer forma, qualquer salto requer uma avaliação cuidadosa, «mas há saltos que requerem uma preparação muito maior, como no caso em que saltei da Ponte 25 de Abril». O atleta refere-se ao famoso salto que fez em 2005. Foram meses de trabalho e uma equipa de 25 pessoas que lhe permitiram realizar um sonho antigo. Sem autorização para estacionar um carro no tabuleiro da ponte, foi preciso estudar com rigor o salto que daria de cima de um camião de 18 toneladas em andamento. O “homem-pássaro” perdeu a conta ao número de vezes que passou na ponte para preparar tudo ao milimetro: «havia o camião, os cabos da ponte “de X em X metros”, tivémos que arranjar um barco para me aceitar lá em baixo no rio Tejo, enfim, uma série de condicionantes para ter em conta, desde a velocidade a que o veículo ia, à distância entre os ditos cabos». Mário tinha apenas dois segundos para abrir o paraquedas, calcular o momento exacto para saltar da ponte e não podia falhar. Não falhou.
As condições metereológicas e uma boa zona de aterragem são factores externos cuja a importância é relevante para o BASE. Não pode haver demasiado vento nem demasiadas nuvens. Chover não é problemático, mas não é agradável. Quem quer saltar de altitudes mais baixas, pode utilizar aquilo a que se chama o “piloto assistido”. O BASE jumper puxa da mochila um miniparaquedas chamado piloto. Ao ser solto, o piloto é enchido pelo ar e arrasta o outro paraquedas para fora da mochila. Outra opção é a de ficar preso a um determinado sistema que parte. Este mecanismo tem que ter força suficiente para aguentar o paraquedas até ficar aberto, mas ao mesmo tempo ter resistência ao ponto de quebrar na altura certa. RISCOS Bem vistas as coisas, qualquer pessoa, em qualquer lugar, pode sofrer “qualquer” mazela, a fazer qualquer coisa, «até a fazer croquetes», como diz Mário Pardo. A verdade é que os paraquedistas são muitas vezes apelidados de “grandes malucos”. Mas quem se puser à conversa com um, vai ver que pode não ser bem assim. Aliás, Rogério Santos, outro BASE jumper português não fica nada satisfeito com essa conotação. Quem fala com ele percebe-o mesmo antes de abrir a boca. Sim, «garantidamente há mais rigor neste tipo de desporto, bastante mais. E no BASE ainda mais do que no paraquedismo», ressalva Mário Pardo. É por essa razão que o instrutor não dá cursos de BASE Jumping a pessoas com menos de 200 saltos de paraquedismo e com maior quantidade no último ano. É importante no seu desempenho e o individuo deve trazer um hábito regular de treino pois «a repetição é a mãe da habilidade», diz o atleta. E nesta modalidade o saltador não pode falhar, só há uma chance. Curioso que, na sua maioria, senão mesmo em todos estes atletas que gostam de voar, encontramos gente muito bem disposta, que parece estar sempre de bem com a vida. O paraquedismo e as suas variantes são muito responsáveis por isso. Para melhor entendermos esta culpabilidade temos que perceber o que sente um BASE jumper, por exemplo. Grande parte deles, explica-nos que ao superar um medo, o sentimento natural que nos invade depois, é o de alegria, por termos conseguido vencê-lo. «A sensação de ultrapassar os nosso medos é altamente gratificante.», justifica Mário. Quando salta, a primeira sensação natural que experimenta, é a do medo e isso leva a uma elevada produção de adrenalina, onde um dos efeitos é a maior capacidade de resposta a situações perigosas. Não lhe é fácil explicar, mas quando “aterra”, Mário sente, talvez por isso, uma mistura de sensações: alegria, bem-estar, paz. E tem a resposta na ponta da língua, quando se lhe fala no perigo da modalidade: « Repara, é como andares aí de carro. Se tu andares a passar traços contínuos e a passar vermelhos, as probabilidades de acontecer alguma coisa são elevadas. Mas lá está, se fores cumpridor, se tiveres em consideração uma série de factores, não só a tua condução como a dos outros (neste caso ali não há outros, mas há vento, isto e aquilo), não quer dizer que não possa acontecer qualquer coisa, mas as probabilidades são bastante inferiores. São os cuidados que tu possas ter, que vão fazer a diferença.» Apesar do mito de ser uma actividade muito perigosa, o paraquedismo moderno só se torna perigoso quando o Praticante ignora as regras de segurança. No paraquedismo muito raramente existem acidentes provocados por terceiros ou por falha de material. Na realidade, estatisticamente ( relacionando o numero de saltos com o número de acidentes, o paraquedismo é muito seguro e até bem mais seguro que outras modalidades mais “inocentes”. A EXPERIÊNCIA
Mário Pardo procurou ir mais além do que o paraquedismo e o skydive e encontrou o Base Jumping. A modalidade acolheu-o e o instrutor correspondeu até agora com cerca de 400 saltos, um pouco por todo mundo. Em Portugal os mais emblemáticos foram o das Torres Gémeas (em Sete Rios), o do Aqueduto das Águas Livres ou o da Ponte 25 de Abril, todos eles em Lisboa. Mas o mais fantástico foi mesmo o da Madeira. Mário fez a proeza de saltar do Cabo Girão, em cima de uma mota e viu o azul do céu a misturar-se com o azul do mar. Sobre este salto, que gosta de referir particularmente, o baser diz que é algo que jamais irá esquecer, pela sua espectacularidade e impacto visual.

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