Ela chegava às 6 todos os dias; dirigia-se à cozinha, abria o frigorífico e por momentos, o tempo parava enquanto desfrutava do seu pequeno e doce segredo… era um prazer diário do qual não abdicava.
Ele chegava às 7 todos os dias; tirava os sapatos e sentava-se no sofá para ver o telejornal… de repente, levantava-se com o atrapalho de quem esquece algo importante: Ah! O beijo!
Ela assistia com graça a este ritual diário que Ele nada fazia por alterar…
E todos os dias era assim… O ritual repetia-se dia após dia… A calma da chegada à casa; a segurança de saber como seria o final do dia… e como seria o dia de amanhã e o dia depois de amanhã, e o fim-de-semana e o próximo mês e as próximas férias…
Com frequência, Ela olhava-se ao espelho tentando reconhecer aquele rosto que não só era menos jovem, mas também tinha-se tornado mais sério e menos expressivo… afinal quem sou eu…
Já nada fazia a sua respiração falhar. Nem sequer aquelas noites de amor onde Ele ousava dizer-lhe pequenas frases de amor ao ouvido; alguns arrepios faziam acreditar, por segundos, que a partir desse momento as coisas seriam melhores, mas não… apenas aquele doce, no frigorífico, fazia saltar o seu coração.
Um dia Ela chegou mais cedo, e o frasco do seu doce favorito ficou por abrir,
Apressada arrumou algumas roupas numa mala que comprou às escondidas. Ainda pensou escrever uma carta, ou talvez alguma frase para SMS… Afinal, Ele tinha sido o seu companheiro de anos, certamente merecia alguma explicação.
E quando o mundo de repente ganhava novas cores, Ele apareceu mais cedo também.
Os seus olhos tentando esconder a surpresa revelavam o que iria acontecer. Ela ficou impávida… Ele com dificuldade em articular as palavras… “Por favor, não vais… fica comigo… não sei viver sem ti”…
Ela não reagiu, era mais fácil ficar.
Deixou a mala ainda por fechar no chão… Dirigiu-se à cozinha e abriu o frigorífico e ali estava o seu pequeno e doce segredo.
Ele, ainda aturdido, foi até ao quarto, tirou os sapatos e sentou-se no sofá a ver o telejornal.

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