
AVISO: Se prosseguirem com a visualização deste texto humorístico, arriscam-se a ler algo que, muito provavelmente, corresponderá à coisa mais ridícula que já leram e irão ler. Não é minha intenção ferir susceptibilidades: é apenas um texto humorístico. Estão avisados.
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Spiny era um rapaz normal. Só que não tinha pernas. Por isso, quando jogavam futebol na escola, Spiny tinha que ficar apenas a ver. Mas ele não ficava muito triste, porque tinha sempre o seu Game Boy na mochila para ocasiões como aquelas. Ainda bem que tinha braços.
Como é que Spiny ficou sem as pernas? Simples: foi atropelado por uma mota. Doeu-lhe muito, na altura. Mas Spiny via sempre tudo pela positiva: pelo menos agora já não tinha de correr nas aulas de Ginástica, algo que ele detestava imenso.
Spiny tinha 17 anos. Frequentava o ensino secundário, como a maioria dos jovens da sua idade. Devido ao seu problema, as aulas dele eram sempre no rés-do-chão, o que era uma mais-valia para a sua turma, já que as cadeiras das salas do piso inferior eram almofadadas. Exactamente por isso, Spiny tinha muitos amigos. Todos o congratulavam por ele permitir que eles se sentissem mais confortáveis durante as suas aulas. Era muito popular.
Spiny era muito inteligente. Um dos melhores alunos da escola, a par da Rute Fernandes do 11º D, que não tinha orelhas. Ela era uma das suas melhores amigas, mas não falavam muito porque ela não conseguia ouvir. No entanto, comunicavam bastante por SMS, como todos os adolescentes fazem hoje em dia. Portanto, a sua relação não era diferente de muitas outras. Ambos partilhavam praticamente os mesmos hobbies: jogar à sueca, fazer colagens e cozinhar. No entanto, Spiny gostava de ouvir música, e isso tinha de fazer sozinho.
A família de Spiny era perfeitamente normal. A mãe era advogada, o pai era motard e o irmão mais velho era estilista. Era também homossexual. A família não tinha muitos problemas; todos se davam bem. A única tragédia daquele lar correspondia exactamente ao dia em que Spiny tinha ficado perneta: o dia em que um dos amigos motards do pai o atropelou “na brincadeira”, tal como o próprio referiu. Mas Spiny não gostou muito da brincadeira.
Spiny também sabia tocar pandeireta. Era, até, um dos melhores na sua cidade. Juntamente com Rute, a sua amiga, que tocava maracas, dava espectáculos muito bonitos para conhecidos. Rute tocava apenas maracas mas Spiny também tinha alguma perícia na caixa de sinos; era muito versátil, portanto.
O jovem nunca tinha viajado muito. Não só porque não podia andar mas também porque ninguém em sua casa gostava de se afastar muito da terra natal. Porém, já tinham ido a Amesterdão, há cinco anos. Aí, Spiny ainda tinha pernas. Mas não tinha o seu Game Boy, coitado. Foi nessa cidade holandesa que andou pela última vez de bicicleta. Os pais proibiram-no de o fazer, depois de o terem visto a passar por cima do irmão a toda a velocidade. Foi nessa altura que Liny, o seu irmão, ficou sem o polegar. Não lhe falou durante três dias.
Spiny sonhava ser pescador. Desde que viu a publicidade do Capitão Iglo, quando criança, não pensava noutra coisa. O seu maior desejo era um dia capturar o mítico douradinho gigante, dizia ele. Claro que tinha um plano B: ser professor de Artes Visuais. Não sabia desenhar mas gostava de o fazer. E como o pai sempre lhe tinha dito para fazer aquilo que ele gostasse, estava decidido a não mudar de plano.
Spiny já teve uma namorada: a Rosa. Mas ela deixou-o. Porquê? Segundo a própria, porque desde o momento em que Spiny perdeu as pernas, ficou mais chato. O rapaz percebeu. De facto, sentia-se mais chato: devido à fisioterapia, já não acompanhava Glee e, portanto, não tinha muito assunto. No entanto, continuava a ir ao You Tube para ouvir as novas músicas da série.
Spiny gostava muito de ler. Lia tudo o que pudesse. Livros, jornais, revistas… Tudo. Excepto os papeizinhos que vinham dentro das caixas dos seus remédios. As letras eram muito pequenas e ele, por infelicidade, via mal de um olho. Por infelicidade entenda-se acidente. E por acidente entenda-se que alguém lhe enfiou um pincel no olho. Quem? O amigo do pai, claro. Era louco. Mas Spiny até gostava dele, por causa do brinco fixe que tinha na orelha direita.
Spiny era escuteiro, um Caminheiro. Não se adequava muito, visto que ele não podia caminhar. Também tinha muitos amigos lá, principalmente o seu vizinho, Josué. Este era filho do motard que lhe tinha tirado as pernas. Mas, tal como o pai, era muito fixe. Sabia os números em esloveno e conseguia ficar 2 minutos debaixo de água, sem respirar. Além disso, partilhava sempre com ele a sanduíche de mortadela que levava para os acampamentos. Só era pena o facto de Josué ter uma dentada muito grande.
Spiny acabou por falecer aos 25 anos, já casado com Rute e com um filho. O rapaz chama-se Tomé e nasceu sem qualquer problema. Claro que Spiny, que já está morto, não sabe que o filho, hoje com 15 anos, ainda não sabe falar. Mas já diz “mamã”. Spiny também se tornou num grande pescador antes de morrer. Um dia, em apenas duas horas, pescou duas trutas e uma sardinha. Foi uma festança lá em casa. Chamou os amigos todos. Mas, depois, eram tantos que tiveram de encomendar frangos.
Como é que Spiny morreu? Numa infelicidade. E por infelicidade entenda-se acidente. E por acidente entenda-se que o amigo motard do pai, “na brincadeira”, como disse o mesmo, o empurrou do 4º andar da Biblioteca Municipal. Pelo menos o Game Boy estava em casa, a salvo.
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