Sexo. Anjos.
Dizem que os anjos não têm, e não têm, sexo. Mas os anjos podem ter forma ou cor ou tamanho ou até serem invisíveis e, não se vendo, apenas podemos senti-los.
E você – já viu, ou sentiu, um anjo?
Vamos começar pelo princípio – por que raios dizem que os anjos não têm sexo se eles, os anjos, carregam um substantivo sobrecomum que lhes confere um só, o masculino, género gramatical? Talvez valha a pena pensar que a essência masculina das coisas seja a mais forte no sentido de ter uma carga de poder associada, uma marca d’água naquilo que é a força.
Um anjo, os anjos, pode ser aquela pessoa que nos segura quando parece que vamos cair ou nos empurra quando temos a sensação de estarmos parados. Mas um anjo, os anjos, pode ser aquela paz ocre das planícies alentejanas; ou aquele sorriso desconhecido que nos conforta como água morna nos pés; ou uma palavra – um anjo, os anjos, pode ser uma, aquela, palavra que nos aquece a alma em um dia de frio gelado. Um anjo, os anjos, pode ser música – uma que acalme ou outra que faça mexer. E podem bem ser uma faixa de rock and roll tocada e cantada à maneira – à maneira forte e segura e confortável dos anjos. Só os anjos conseguem misturar blues com gospel e country e swing, mexer bem, e fazerem uma dança carregada de alegria. O rock and roll é ou não é a dança da alegria e são ou não são os anjos os seus mensageiros?
E é por isso que eles, os anjos, estão por todo o lado, são como o ar, são leves e frescos como as manhãs claras sempre a aguardarem oportunidades de serem brisas e música e rock and roll. E eles, os anjos, cansados de ouvirem dizer que não têm sexo, infiltram-se de fininho nas coisas e fazem a alegria, a nossa alegria, que pode simplesmente ser o descanso do nosso cansaço.
Os anjos são maravilhosos seres assexuados no masculino, pénis do melhor que pode haver: erguem-se quando nos vêem passar perante os nossos encantos quando percebem nos olhos, nos nossos, o maior desencanto. Os anjos são pénis de rock and roll que nos oferecem a pirueta alegre quando a vida nos enrola em um slow triste.
Porque a alegria, e os anjos, não duvide, acredite, existe.

Muito bom texto! Mesmo…
obrigada pela tua capacidade de escrita e como tal é um prazer ler os teus artigos. parabens