Porque é que a malta jovem não anda a poupar para a reforma?

É certo que a recente (ou aparentemente recente) crise é a resposta imediata para a pergunta de porque é que a malta jovem não anda a poupar para a reforma… pois se a malta mal tem dinheiro para uns copos, o que dizer de reservar parte de um vencimento já escasso, para uma data tão longínqua quanto a reforma!? Não obstante a validade desta resposta, existem muitas outras capazes de trazer algum esclarecimento, sendo que a que se segue carecerá sempre de outras abordagens.
A psicologia tem aplicado frequentemente, a Teoria do Nível de Abstracção (originalmente, Construal Level Theory) a temáticas como a poupança ou a procrastinação de uma maneira geral… como é o emblemático caso da dieta que começaremos sempre, no mês seguinte, na 2ª feira seguinte, no ano seguinte… o poupar para a reforma também pode ser explicado por este fenómeno. A teoria do nível de abstracção (bear with me) explica que quanto mais distante se encontra um objecto ou realidade, mais a representação desse objecto é generalizada e difusa.
O quê? (perguntam vocês)
Usando uma metáfora mais simplista: à entrada de um parque natural, se tomarmos uma árvore como referência, quanto mais perto estivermos dessa árvore, melhor a vemos, mas pior veremos as restantes árvores. Pelo contrário, se nos distanciarmos dessa árvore, não a veremos com tanta nitidez, mas conseguiremos ver todas as árvores em redor. É isto que acontece com os anos da reforma, dependendo da distância a que estamos deles.
O quê? (perguntam vocês novamente…)
Bom… Concordam, seguramente, que é mais fácil imaginar como será a nossa vida na próxima semana do que imaginá-la daqui a 20 ou 30 anos. A próxima semana pode ser programada com detalhe e pormenor, sabemos exactamente (excepto imprevistos e estes serão sempre impossíveis de prever) quantas refeições vamos ter e quanto nos vão custar, as consultas médicas que teremos, quantos cafés vamos sorver e até quanto gastaremos em combustível (com o rigor possível, dado que o valor deste bem é particularmente volátil!). Pelo contrário, não fazemos ideia que consultas teremos, quantos cafés beberemos ou sequer se ainda andaremos de carro daqui a 30 anos, quando tivermos que usar o dinheiro que estivemos a poupar para a reforma!
É claro que não poupar para a reforma é um problema, é um enorme problema que extravasa os limites da responsabilidade que o Estado detém sobre cada contribuinte e portanto este é o meu contributo.
A malta jovem vai continuar a sentir dificuldade imaginar-se reformado e imaginar quais serão as suas necessidades nessa altura, é simplesmente uma questão de tangência. A reforma não é um fenómeno tangente para os jovens. Mas está ao nosso alcance reduzir esta distância que é mais psicológica do que real… quem é que nunca sentiu que os dias/semanas/meses/anos passam a correr?
Uma pequena experiência…
Prescrição: por brincadeira, escreve num papel em que idade imaginas estar reformado, depois esboça uma semana típica de reformado (número de cafés ingeridos, gastos em alimentação, se terás renda para pagar ou não, etc.), multiplica pelo número de semanas num ano e pelo número de anos que estimas estar vivo e voilá, terás um valor pouco aproximado, mas já tangente, de quanto precisas poupar para a reforma. Faz este exercício as vezes que conseguires e em caso de persistência dos sintomas (deficit de imaginação) basta que deixes os anos passar.

Excelente texto! Uma abordagem que exemplifica, na perfeição, aquilo que muitos jovens como eu sentem e pensam sobre o seu futuro e a hipótese de algum dia usufruirmos de uma reforma. Parabéns Luísa Fernandes.