A terapia placebo
Placebo, para a medicina convencional, constitui uma espécie de fonte de perturbação inspirando uma profunda reflexão na classe médica – em relação à prática clínica em geral e à abordagem terapêutica em particular.
O placebo, na eventualidade de possuir uma acção, deve a sua expressão ao impacto que poderá ter sobre o efeito – o efeito placebo. Este efeito, constatado em diferentes contextos clínicos e patológicos, que tem sido motivo de publicações, situa-se numa importante e polémica zona de discussão e, ao mesmo tempo, permanece pouco documentado.
O que se sabe?
Os medicamentos, ainda que sejam a principal arma terapêutica dos médicos, não são os únicos responsáveis pela abordagem global do doente e pelo próprio processo de cura;- A história demonstra que durante muitos séculos, substâncias simples e corantes – utilizadas como medicamentos – auxiliaram os médicos a obter resultados benéficos: tais resultados dificilmente poderiam ser atribuídos à farmacologia e, por isso, presume-se que o sucesso de uma terapia pudesse ser devido à confiança supersticiosa dos doentes e influência e poder de persuasão dos médicos;
- Os resultados positivos obtidos consistiam no alívio dos doentes e na melhoria do seu estado geral – não num resultado em si mesmo mas numa mera etapa intermédia do processo de abordagem global;
- Esta etapa tem, no entanto, uma importância considerável na medida em que coloca a percepção do paciente relativamente ao seu estado geral no centro da avaliação terapêutica e, como tal, torna-se susceptível de modelar o estado de espírito do doente: a melhoria constitui um factor de encorajamento, podendo reduzir ou anular a componente psicossomática da patologia tratada;
- Recusar ter em consideração o psiquismo do doente e a expressão do seu mal-estar, inerente a todo o estado patológico, reduz a abordagem terapêutica a um simples acto de tecnologia médica;
- A abordagem terapêutica actual, apesar de inequivocamente ter melhorado os níveis de saúde das sociedades desenvolvidas, deixa, aparentemente, o público insatisfeito;
- Observamos, no presente, um certo número de fenómenos sociais que comportam uma importância sintomática na valorização da medicina actual: o crescente interesse pelas medicinas alternativas, o retorno à esfera espiritual e às práticas religiosas, a importância conferida à ecologia e ao ambiente, a preferência pelos produtos de origem natural. O público manifesta uma atitude de inquietação, ou mesmo de desconfiança, relativamente à perspectiva exageradamente científica que tem marcado a modernidade – particularmente no campo da saúde.
Efeito terapêutico?
Todas estas considerações levam a que a classe médica se interrogue sobre a vertente do efeito terapêutico não especificamente imputável ao medicamento e qual a importância que lhe deverá ser conferida na abordagem dos doentes. A questão, essa, suspeito que permanecerá eternamente incógnita para a medicina convencional. O que é um placebo e o que devemos entender por efeito placebo?

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