Existe marginalização perante a situação de desemprego?
Há dias, perguntei a um amigo, desempregado, que tipo de trabalho estava à procura. A resposta foi “Qualquer um. Eu quero é trabalhar!”. Obviamente. Alguém que sempre trabalhou, vê-se na situação de desemprego e, obviamente, quer é trabalhar. A situação de desemprego é uma incessante procura, incerta, muitas vezes frustrante, a maior parte das vezes exaustiva. E há muita gente, empregada, felizmente para eles, que parece não saber disso. Assim como também os próprios desempregados se deixam, por vezes, submeter a esse rótulo de que têm tempo para tudo, quando isso não deve ser a realidade. Há algum tempo atrás, ouvi uma notícia que falava da marginalização dos desempregados nos centros de emprego. Não tenho conhecimento desse facto mas suspeito que haja uma marginalização escondida na sociedade, muito subtil, que dá palmadinhas condescendentes nas costas e diz “Ah estás desempregado(a)? Ah coitado(a), vais ver que entretanto arranjas qualquer coisa”. E vira costas pensando “Mais um(a) a ganhar subsídios sem fazer nenhum”.
Há que ser um desempregado “profissional”!
O facto é que um desempregado “profissional” trabalha. E muito. Para começar tem de procurar trabalho, estar sempre atento, aos jornais, à net, às notícias, às conversas. O radar tem de estar sempre ligado em busca de uma oportunidade que o afaste da situação de desemprego. E quando encontra ofertas tem de ajustar-se à procura. Os currículos personalizados que devem ser apelativos, as cartas de apresentação, as apresentações pessoais, todos os pormenores têm de ser minuciosamente estudados. E muitas vezes, para nada conseguir. Depois, independentemente de ser homem ou mulher, sendo o desempregado da casa (e felizes são aqueles em que só um da casa se encontra nesta situação de desemprego) há que fazer o trabalho de casa: limpar, lavar, arrumar, passar, cozinhar… Esmagam-se as esperanças de uma realização profissional, esmaga-se o orgulho da concretização dos sonhos de família, esmaga-se a auto-estima. E a tudo isto acresce um sorriso obrigatório. Um sorriso simpático quando se responde a uma oferta de trabalho. Um sorriso acolhedor quando se chega à noite e todos regressam a casa “cansados do trabalho”.
A gestão alheia do tempo útil de um desempregado…
Os desempregados ouvem coisas fantásticas como “agora tens tempo, podes fazer isto e aquilo”, “podes aproveitar para isto e aquilo”… como se a situação de desemprego fosse uma sorte ou como diz “o outro”, “uma oportunidade”. Compreendo, aceito e até defendo, a visão de tornar o desemprego uma oportunidade. Agora considerá-lo, em si, uma oportunidade? Não. A menos que tenha sido uma opção pessoal, o estado de desemprego é retirar a alguém a sua vida anterior: a rotina, a responsabilidade, a integração num ambiente, o sentir-se útil e recompensado por isso. É verdade que há desempregados que não se encaixam, de todo, neste perfil. Acomodam-se e provavelmente estão na origem deste preconceito. Mas num mundo em que o desemprego atinge as proporções de hoje, não podemos generalizar. Hoje em dia, há demasiados bons profissionais no desemprego. Há demasiadas boas pessoas a lutar todos os dias por uma oportunidade de trabalho. Como diz o meu amigo, simplesmente querer trabalhar. Conheço o desemprego de perto. Sei que alguém nesta situação de desemprego não é menos digno do que as outras pessoas e como tal merece o mesmo respeito. Não merece pena nem compaixão. Merece atenção. Merece que não o subestimem. Merece uma dose extra de optimismo. Merece um sorriso sincero. Merece FORÇA para suportar as incertezas do presente num futuro também ele incerto. Porque a vida do desempregado, tal como a de toda a gente, não é nada fácil. E agora, bom dia, eu vou trabalhar. 

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