Evocar a paisagem holandesa
Quando procuramos evocar em nós memórias sobre a paisagem holandesa, pensamos principalmente no mar, nos rios, nos longos canais e céus carregados de nuvens pintados, em grande parte, pelos pintores barrocos. A pintura torna-se assim indissociável da representação que a paisagem holandesa tem no imaginário colectivo, sendo que a representação pictórica atinge dois picos de elevada qualidade e reconhecimento: o barroco e as décadas de transição entre o fim do séc. XIX e o início do séc. XX.
A representação pictórica no barroco
A temática pictórica, no Barroco, centrava-se em dois temas fundamentais: «A paisagem», em todo o seu esplendor dramático; e «O homem e a natureza», numa relação de fusão e comunhão.
Seguindo as características do claro-escuro, dos contrastes, dos jogos de luz e da indefinição dos objectos, acentuava o carácter melancólico, pesado: as aldeias são distantes, os moinhos de água e os canais sobressaem entre as árvores e os céus nublados.
Temática «A paisagem holandesa»
Tomem-se como exemplo Mar tempestuoso, Jacob Ruisdael (séc. VII). Céus que se confundem com mares e vice-versa, nuvens que carregam o céu de uma atmosfera pesada, pronunciando a tempestade próxima veja-se. Por vezes, vislumbram-se algumas figuras humanas que estão de tal forma confundidas com o solo, ao ponto de se tornarem imperceptíveis – a atenção é imediatamente atraída para a negra massa nebulosa que agita toda a atmosfera; os barcos agitam-se vergados pela força do vento, o mar agita-se contra os cascos das embarcações. Qualquer que seja a forma como a paisagem holandesa é apresentada, ela é a figura maior, a essência do que é pintado, mesmo quando é pintada a par de figuras humanas.
Temática «O homem e a natureza»
Quando ambos se juntam – como em Cena de Inverno com patinadores junto ao Castelo, Hendrick Avercamp, séc XVII – a natureza mantém o seu lugar de destaque, uma vez que os homens se movimentam consoante a estação do ano em que estejam e as condições climatéricas, sempre em função dos condicionantes humores da natureza. Os patinadores divertem-se no gelo e é esse mesmo gelo, a paisagem holandesa pintada de branco, que sobressai: os corpos são um conjunto vagamente indefinido, mas a estação do ano é facilmente observável, não só pelo gelo, mas também pelo esqueleto de uma árvore nua pelo frio do Inverno, em primeiro plano.
Na representação das estações do ano, o Inverno é a estação preferida, frequentemente apresentado por uma natureza desolada, triste – que pelo manto branco que a cobre, quer pela chuva ou o frio que a fustiga –, onde as figuras humanas são minúsculas, insignificantes no mundo que as rodeia e controla. Mesmo na pintura de Hendrick Avercamp, ainda que seja uma cena de divertimento, os braços cadavéricos das árvores apontam para essa dureza e frieza.
A representação pictórica nos séculos XIX/XX
Quando chegamos a a estes dois séculos, as paisagens são mais realistas, embora a influência dos pintores da Época Dourada continuem presentes, como em The Schreierstoren and the Buitenkant in Amsterdam, de Jacob Matis (1870). Reindert Falkenburg («Nature Teaching Art – Painted Landscapes in the Low Countries» aponta as razões para esta diferença em abordar a natureza: «the nineteenth-century landscape artist – aided by the invention of easily portables tubes of paint – began to paint whole pinctures in the open air, from their own direct observation. This made it much easier for them to take note of all the fleeting natural phenomena associated with changes in the weather ant to capture them with rapid strokes of the brush».
A Holanda desprende-se de uma representação efabulada, sem quebrar totalmente com os elementos que a caracterizam.

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