Apetece-me morrer! Apetece-me combater até que o corpo fraqueje de dor. Apetece-me gritar até que a voz me atraiçoe. Apetece-me abanar o mundo até que vida me deixe respirar.
As feridas abrem-se. A alma rasga-se. Dói, dói muito.
As amarras não se soltam. As cordas apertam os pulsos e os tornozelos. A mordaça faz sangrar a boca e a venda, embebida em lágrimas, cega. O corpo contorcido desistiu de se arrastar pelo chão de lâminas afiadas.
A verdade esvai-se em desilusão. A esperança mata o ser. Dói, dói muito.
Os pés descalços sentem a pele arranhada. As pernas envoltas em dormência deixam de se mexer. O tronco dorido está inerte e os braços perderam a força para puxar o mundo. A mente já não controla o corpo afogado em sangue.
O sentimento é cruel. A contrariedade lasca os ossos. Dói, dói muito.
O rosto desfigurado saboreia a amargura. Os olhos contemplam a escuridão da distância. A boca morde a incompreensão. Sente-se a ansiedade da incerteza. Ouve-se o barulho ensurdecedor da raiva e o cheiro… cheira a frustração.
As mãos estão paralisadas e a vida arrasta-se por entre os dedos. Dói, dói muito.
Sim, é assim que descrevo o meu deambular. Sim, sou sem-abrigo. E sim, dói, dói muito.
E hoje, o sol ardente foi derrotado pela noite fria. Mais um dia que o calendário anulou. Mais um dia igual a tantos outros. Mais um dia devorado pela fome, pela sede, pelo frio… pela miséria. Mais um dia destruído pela indiferença, pelo abandono.
E a rua deserta permanece intacta na podridão do ser. Sim, sou sem-abrigo e dói, dói muito.
O corpo magro aninha-se em cima do sujo papelão. O chão duro já não magoa e a parede áspera acaba por confortar o desamparo de algum brusco movimento. As roupas rasgadas perderam a cor e a velha manta já não aquece. O peso dos anos aqui perdidos massacram o olhar desesperado, a pele enrugada, o rosto irreconhecível.
Neste canto desta rua, igual a tantos outros, surdos gritos teimam em não se fazer ouvir. Neste canto desta rua, igual a tantos outros, o mundo continua a roubar a força para sobreviver. Neste canto desta rua, igual a tantos outros, o ser deixa de ser gente.
Sim, sou sem-abrigo e dói, dói muito.
A humanidade atraiçoa-nos, mas, às vezes, a calçada ecoa passos incertos de esperança. E hoje… hoje é um desses dias. Umas mãos calejadas estendem-me comida e uma nova manta, que me vai aquecer o corpo, mas, principalmente, a alma.
Estendo os braços já fracos e abro as mãos trémulas. Olho o desconhecido e um enorme sorriso contagia-me. Sim, um enorme sorriso. Como eu anseio por estes sorrisos! Como eu anseio por estes simples gestos tão grandiosos!
“Faço 70 anos. Vivo sozinho, mas partilho este dia consigo”, diz-me o desconhecido com voz embargada. “Eu também faço anos”, respondi-lhe. Mas eu… já lhes perdi o conto nesta labuta incessante de quem já nada tem a perder.
Sim, sou sem-abrigo e dói, dói muito.

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