O FMI admitiu que errou na forma como lidou com a situação em Portugal. Mas também disse que vai continuar a fazer a mesmo. Assim, as imposições e a política que têm estado a destruir este país vão prosseguir, e não há nada que se possa fazer porque não temos independência para dizermos não e alterarmos o rumo da situação.
Parte do problema que temos deve-se à falta de independência. É incrível como ao longo da história abdicamos sempre tão facilmente da nossa independência e soberania. Depois de reconquistarmos a independência com a Restauração, rapidamente abdicamos dela para nos tornarmos, em termos económicos, uma colónia inglesa. Durante os séculos seguintes deixamos de ter política externa, limitando-nos a fazer o que os ingleses diziam. Passamos a vender-lhes vinho e a comprar os seus têxteis, quando nós podíamos fazer os nossos próprios têxteis. O resultado? Foi Portugal tornar-se no país mais pobre da Europa Ocidental.
Com o enfraquecimento Britânico, fruto das duas guerras mundiais, e do isolacionismo autárcico do Estado Novo, voltamos a ter alguma independência. Mas mais uma vez voltamos a abdicar da nossa soberania, quando, após entrarmos na Comunidade Europeia, adoptamos o Euro como moeda e nos afirmamos como o país que mais rapidamente adopta e põe em vigor a legislação vinda de Bruxelas. Este último ponto não deixa de ser bastante interessante. Com o alargamento da União Europeia aos países de leste, os nossos iluminados e competentíssimos políticos, visando tornar Portugal competitivo e atractivo na atracção de investimento estrangeiro, puseram-nos na linha da frente da aplicação e implementação das normas e directivas europeias. Ora, passado já algum tempo desde que optamos por esta orientação politica, podemos concluir que ela tem dado excelentes resultados, com nenhum estrangeiro a querer investir cá. Excepto quando chineses ou outros compram uma daquelas empresas monopolistas, daquelas que dão lucro façam o que fizerem, como a EDP. Mas isso não é investir num país, é como quem vai comprar roupa nos saldos.
Se Portugal já tinha dificuldade em competir com a mão-de-obra barata dos países asiáticos, deixou de ter hipóteses de o fazer com a aplicação das normas ambientais fundamentalistas vindas de Bruxelas. E, sobretudo, com o escancarar das barreiras alfandegárias, que permitiu que se despejassem mercadorias à vontade na Europa, quando os países asiáticos e latino-americanos impedem a entrada de produtos europeus com proteccionismo. Os políticos portugueses ainda pensam que a Europa é o centro do mundo e o pico do desenvolvimento e da civilização, quando na realidade, desde a Segunda Guerra Mundial, ela é periférica face aos Estados Unidos. E agora com a China sê-lo-á ainda mais.
Novamente, quando somos atingidos duramente pela crise, voltamos a abdicar facilmente da soberania nacional para nos colocarmos sob a tutela da Troika. Os resultados mais uma vez estão à vista, com desemprego recorde, emigração e dívida pública astronómica. Precisávamos de ajuda externa, devíamos ter aceitado assistência financeira mas nunca a cedência de soberania ao FMI. Neste aspecto os espanhóis estiveram muito bem ao aceitarem ajuda financeira mas a recusarem ceder a sua independência a instituições estrangeiras. Isto deu-lhes margem de manobra para puderem aplicar a austeridade e reformas de uma forma não tão brusca que destruísse a economia. Mas também lhes deu a possibilidade de, se necessário, inverterem políticas que não estavam a funcionar.
A facilidade com que se abdicou da soberania do país só demonstra a capacidade e a confiança que as elites e os políticos deste país têm em si próprios, em Portugal e nos portugueses em geral para resolver os problemas.

DEIXE UM COMENTÁRIO