O que é, afinal, um funeral?
Um funeral é, bem visto, um casamento com a eternidade – um casamento aparatoso do cadáver com, desconhecido, aquilo que o espera. Ora veja lá se não é esta a definição.
Um funeral para ti, um funeral para mim
Esta é, sem dúvida, a máxima que escolho decorrente da minha experiência – que não é muita – em funerais. O que antecede – fazendo, por isso, parte dele – um funeral é a velação do cadáver, o que vem comprovar a minha teoria sobre o casamento que é o funeral, mesmo ali naquele espaço moderno com ar condicionado em que se tornaram as capelas.
Uns choram, outros conversam, outros apenas observam os vivos. Já quem observe o cadáver, que é um dos nubentes, há poucos.
Eu recolho-lhe sempre todos os pormenores, todos os indícios de felicidade. Sim, se o cadáver vai casar é porque está feliz, os cadáveres não são noivos cínicos e não tencionam enganar nem a eternidade nem a sociedade: os cadáveres são gente boa e só precisam de quem os queira compreender no amor que estão a sentir ainda que, não sabendo exactamente para onde vão, tenham a certeza do ir.
O esgar dos cadáveres nos funerais
Muito mais do que as expressões dos vivos, ou pelo menos dos que por lá andam a rabear, interessam-me os esgares dos mortos no funeral. Apercebo-me do sorriso, sempre entre dentes, discretíssimo mas sincero, um pouco ao lado mesmo quando insistem em dizer-me que o nubente não morreu com trombose. Pobres criaturas! As vivas! Que desconhecem a linguagem eterna! É que mesmo que um cadáver tenha tido uma morte lixada, quilhada mesmo, aquele momento de velação é feliz – um protagonismo sem igual, aquela suposta atenção durante horas a fio, as lamentações do ir e as conversas elogiosas a vir. Não há que discordar das evidências, tenham santa paciência, aquele momento de flores e lágrimas e conversas e sorrisos é o the one in a life time – e quem nunca viu isto é porque está vivo que nem um morto.
O cetim e o tule
O nubente não escolhe a roupa que veste no funeral – nem lhe interessa: tem a certezinha absoluta de que se vai deitar em cetim e cobrir-se de tule, de branco, sempre de branco, rumo ao altar. Ele sabe, o cadáver, que teve de viver uma vida inteira – as vidas inteiras podem durar poucos ou muitos dias ou anos – para usufruir de tamanha festa e de tão peculiar celebração em sua honra. E fica a aguardar. E tanto é verdade isto que digo que os convidados já lhe cruzam as mãos naquele movimento corporal, serenidade com passividade, sem movimento.
O cadáver aguarda por tudo: pelo desposar com a eternidade, pelos carinhos e atenções dos vivos, pelo sermão do padre – daquele padre que nunca lhe estendeu a mão quando precisou em dias de chuva e que vai agora, até que enfim! discursar por si e para si em público.


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