Sou filha de emigrantes portugueses en França. Uma entre tantas outras. Peço desde já desculpa, pois o meu português poderá ter marcas desta minha condição.
A comunidade portuguesa em França é enorme. Somos mais de 1 milhão. Esta comunidade foi à procura de uma vida melhor, quando a França ainda era um « Eldorado ».
Ser emigrante não é fácil. Nunca foi. A nossa identidade vai-se diluindo com o tempo. Em França, somos portugueses. Em Portugal, somos os franceses, os « aveques », que chegam com o BMW ou o Mercedes à terra natal. Corre no sangue dos emigrantes o desejo de mostrar que conseguiram algo, e que o sacrifício de ter saído do pais, longe da família, dos amigos, para tentar a sorte noutro pais, valeu a pena. Claro que valeu a pena. Nunca me faltou nada, e se os meus pais conseguiram ter o que têm hoje, foi graças ao seu suor. Ainda assim, quando olho para eles, não consigo dominar o sentimento de tristeza profundo, misturado com admiração, que eles despertam em mim.
Os meus pais saíram de Portugal na década dos 80. Quase sem dinheiro, sem saber falar a língua francesa, sem ajudas. Ainda hoje, pergunto-me como é que eles conseguiram superar todas as adversidades. São os meus heróis.
Vivémos 7 anos no último andar de um prédio em Paris. Sem elevador. Os três num quarto. O WC encontrava-se fora de « casa ». Não havia agua quente. Lembro-me da minha mãe me carregar ao colo e subir às escadas com as mãos cheias de sacos das compras. Lembro-me dela encher umabanheira de plástico com água (previamente fervida) para ela me lavar. Lembro-me ainda, de me ter queimado a perna toda com água a ferver, quando tinha 5 anos, porque toquei na panela que estava ao lume. Quando se vive num quarto, pode-se dizer que se lava os dentes na cozinha.
Quando tinha 8 anos, mudámo-nos para os arredores de Paris, num pequeno apartamento. Desta vez, cada um tinha o seu quarto. Ainda vivemos neste apartamento. Com o passar dos anos, os meus pais conseguiram comprar uma casa em Portugal. Uma bela e enorme casa. Esta casa só nos serve uma vez por ano, em Agosto. Aí está a contradição dos emigrantes : Portugal não nos deu condições para construirmos a nossa vida, mas ainda assim, é lá que queremos investir, é lá que queremos (supostamente) acabar os nossos dias. É la, que, uma vez por ano, (tentamos) aproveitar a vida. De resto, 11 meses por ano, vive-se para trabalhar. Sim, vive-se para trabalhar, o que é diferente detrabalhar para viver.
Quando estreiou-se « A Gaiola Dourada », disse aos meus pais que tínhamos que ir ver o filme. Os meus pais nunca tinham ido ao cinema. Foram à França para o trabalho, não para a diversão. Até que consegui que a minha mãe fosse comigo. O meu pai estava ausente, tinha ido trabalhar para o Sul de França.
Fomos num Sábado. Chegámos, comprei os bilhetes. A minha mãe, naquele cinema, pela primeira vez. Lá estava ela, naquele lugar desconhecido. Talvez pouco à vontade. Mas sentia-me feliz por ela lá estar. Afinal, ia ver um filme sobre a vida dela, embora a minha mãe não seja porteira mas sim mulher de limpeza. A fila frente à sala de cinema era enorme. Mesmo. No meio da multidão, só se ouvia falar portugês. Pessoas novas, menos novas, uns a falarem alto, outros a falarem baixo, mas todos unidos para assistir ao primeiro filme a homenagear a comunidade portuguesa em França.
Este filme é doce-amargo. Doce, porque retrata de forma pura, fiel, e humorística, a vida quotidiana de quém tentou a vida noutro país. Amarga, porque também evidencia que esta vida foi, e continua a ser, dura. Afinal, somos estrangeiros em França, mas também em Portugal.
A Gaiola Dourada demonstra bem o quão complexa é a situção dos emigrantes. Trabalhando arduamente, estoirando o corpo, para poder cumprir a meta final : regressar ao país de origem. Um dia. Talvez. Há quem, efetivamente, volte. Antes ou depois da reforma. Há quem não o faça, tendo os filhos em França. E há quém, infelizmente, morra antes de atingir o tão desejado sonho.
Também existe outra situação : filhos de emigrantes a quererem voltar para Portugal, um Portugal que os pais deixaram por falta de oportunidades de trabalho, mas que os filhos adoram : é o nosso país. Nao há nada como o nosso cantinho. Eu entro nesta categoria. Estudei em França, e quando terminei os estudos, fui trabalhar dois anos à Lisboa. Foi uma experiência única. Foi único conhecer um Portugal sem as situações anuais, que se repetem cada mês de Agosto : festas, bailes populares, jantares de familia, praia, sol, farniente. Claro que também faz parte de Portugal, mas apercebi-me, descobri, senti e vi, que Portugal tem muito mais para oferecer.
A Paula, filha do casal emigrante do filme, também regressou. E o Ruben Alves, realizador do filme, ilustrou perfeitamente a ideia de que, talvez, os filhos estejam melhor preparados que os pais para regressar. É difícil regressar quando se sente na pele a cicatriz de anos e anos de sacrifício. É difícil parar, respirar, acalmar um ritmo frenético de décadas e décadas de trabalho intenso. É difícil aceitar que se merece descanso, que se tem direito a respirar fundo e pensar : « Estou livre ». É difícil abandonar a familia que criámos noutro pais.
Por tudo isso, embora sejamos de gerações diferentes, com as nossas divergencias, os nossos desacordos, os nossos malentendidos, tudo o que ficou por dizer, os meus pais terão sempre o meu infinito respeito. E carrego a esperança de ver a porta da gaiola, mais prateada do que dourada, abrir-se no fim do filme.

amei tenho mais historia se queres ouvir e so me chamar!!!