E-Terapia, psicoterapia online, é possível?

Vivemos à distância de um clique. Entre os vários desafios que a vida nos coloca no dia a dia, muitos já podem ser resolvidos com a facilidade de um clique no rato ou de um touch screen. Na vivência altamente tecnológica do dia a dia, em que rapidez, comodidade e fácil acesso à informação são ferramentas básicas de trabalho, não é de pouca importância reflectir na dimensão e utilidade que se presta a outras dimensões que não dependem da tecnologia para existirem: gestão das emoções e auto-conhecimento são alguns exemplos. Num mundo em que a interacção virtual é cada vez mais preferida à interacção face a face, como pode a Psicologia acompanhar esta tendência?
Embora esta seja uma questão de resposta complexa e o campo de aplicação do saber psicológico seja altamente diverso, deverá pensar-se em como podem as terapias psicológicas tradicionais acompanhar a tendência para se viver, virtualmente. Também faria sentido perguntar de que forma é que, aos olhos da Psicologia, pode ser saudável adoptar um estilo de vida virtual, mas se adiarmos esta questão para depois, há já algo a dizer sobre o modo como a prática psicológica procura adaptar-se às demandas da sociedade altamente tecnológica.

E-therapy, ou seja, psicoterapia online, é já um termo em uso para definir o conjunto de serviços psicológicos que podem ser disponibilizados online. Os métodos mais comuns são a videoconferência, o chat, a chamada telefónica e o correio electrónico. Não tão distante está também a possibilidade de que estes e outros métodos sejam melhorados e desenvolvidos, no sentido de proporcionarem uma experiência virtual cada vez mais rica e detalhada, simuladora de ambientes reais.
Ao mesmo tempo este caminho a traçar não é linear nem previsível, é preciso pensar sobre ele. No Brasil, a título de exemplo, a prática de acompanhamento psicológico online é limitada. Não é permitida a prática de “psicoterapia online” (a menos que assuma um carácter experimental) e os serviços disponibilizados inserem-se na categoria de “orientação psicológica”, que não pode ultrapassar a totalidade de 20 sessões. Em Portugal a discussão sobre o tema ainda não chegou tão longe e não existe até ao momento legislação que regule, especificamente, esta prática. Alguns dos espaços que em Portugal disponibilizam serviços psicológicos online baseiam a sua prática nos princípios orientadores sugeridos pela International Society for Mental Health Online.
No entanto, a possibilidade de se praticar ou não psicoterapia online não vem tanto da legislação que lhe é ou não é aplicável mas da sua viabilidade. Sendo que um dos princípios em que se baseia a prática da psicoterapia é, especificamente, a experiência e qualidade relacional entre o psicólogo-pessoa, imaginar que esta relação possa existir, privada de tantos dos seus elementos-chave (muito do que está relacionado com a comunicação não verbal), é imaginar à partida uma intervenção na qual já se entra a perder.
Psicoterapia presencial vs psicoterapia online?
Se pensado unicamente sob a lógica de substituição da psicoterapia presencial pela psicoterapia online, o combate pode revelar-se duro e incompatível. Mas a verdade é que apesar do objectivo geral de ambas ser semelhante – promover o bem-estar do cliente – o campo de acção das duas não é exactamente o mesmo. Entre uma e outra forma de terapia psicológica existem diferenças muito importantes que devem ser respeitadas. A já referida International Society for Mental Health Online, existente desde 1997, tem procurado desenvolver estudos e experiências, no sentido de sistematizar os conhecimentos nesta área. Procura responder nomeadamente a questões sobre a que tipo de problemáticas e a que tipos de personalidades se adequa a terapia online e de que maneira (questões para as quais ainda não há uma resposta sistematizada).
Para já, se o objectivo da terapia online for o de prestar apoio, aconselhamento e até promover discussão sobre questões psicológicas, a terapia online pode revelar-se bastante eficaz. No lado inverso, ela não parece ser aconselhável quando se procura um apoio psicológico mais profundo e detalhado, nem ser apropriada para o diagnóstico e tratamento de doenças mentais mais graves (como as que se inserem no grupo das psicoses por exemplo), quando o factor relacional e a segurança do cliente se torna tão preponderante.
Ao mesmo tempo, não há concorrência quando o que está em causa é que o acompanhamento psicológico chegue a pessoas às quais não chegaria por outros meios: como às que estão isoladas geograficamente, aos que não tem um estilo de vida que lhes permite definir um horário fixo para o acompanhamento, aos que não conseguem dar como primeiro passo exporem-se a um desconhecido, entre outros casos.
Deste modo, talvez a questão não esteja tanto em que uma forma de psicoterapia rivalize com outra, mas que a segunda possa vir complementar a primeira e que a psicoterapia online se torne em mais uma ferramenta para promoção da saúde mental de todos.

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