
Julilândia – uma cidade imaginária
Cada cidade está em um lugar, determinado, fixo. É assim que as cidades, mesmo as imaginárias, se conectam ao Universo – pelos seus pontos de contato, fronteiras, limites e focos de interesse. Em busca de estudar princípios e modelos possíveis para a sustentabilidade urbana, percorremos inúmeros universos e encontramos Julilândia, uma pequena cidade imaginária entre as muralhas escarpadas e as ondas de um mar ressacado. Pequena cidade? Por quê? Quem diz isso dessa megalópole? Pois, é que depende do ponto de vista do observador considerar “pequena” ou “imensa” – quanto mais alto estamos entre as estrelas, menor fica o pontinho físico que observamos.
Para chegar a Julilândia é preciso atravessar a muralha escarpada que protege o continente na sua faixa litorânea. Atravessando a muralha nos deparamos com uma megalópole cinzenta. Suas colinas, terraços fluviais e planícies de inundação estão irreconhecíveis sob tantos automóveis. Das florestas, campos e da mata ciliar que protegia seus caudalosos rios nada restou.
Hoje a circulação é feita por imensos túneis e viadutos que cortam Julilândia. Logo o viajante percebe a peculiaridade de Julilândia, cidade nada convencional, onde os moradores convivem entre o amontoado de carros que não mais circulam. Congestionados para sempre ficaram nas estradas e vias de acesso até o grande centro.
Esta é a triste realidade da pequena, imensa, cidade sem cor – um mar de carros que, por serem tantos, já não conseguem circular. Nem combustível não há para tanto, nem vias expressas, nem ruas ou simples estradas. Soluções foram buscadas, projetos astronomicamente caros foram implantados. Nada conseguiu resolver o problema do acumulo de veículos, da falta de combustível e de espaço para que viagem.
As mudanças na Julilândia são uma realidade!

Porém, há poucos anos alguns, persistentes, conseguiram instaurar algumas mudanças radicais. Julilândia, finalmente, começara a se diferenciar, a se modificar nas estruturas, a mudar de sistema. Pasmem! É a pura verdade!
Ali foi criado um sistema de transporte diferenciado. O viajante deve ficar atento, pois as quadras agora são dotadas de mobilidade para impulsionar a circulação dos prédios, casas, fábricas, grandes mercados. Toda sua estrutura fixa hoje é móvel. Os carros, que outrora moviam as pessoas no movimento pendular do quotidiano, hoje, fixados sobre o asfalto, confortam o cansado viajante como pequenas hospedagens temporárias.
Essa alteração no sistema de transporte significou um “enriquecimento inesperado” de uma porção da população – aquela que consegue usar este inovador meio de transporte. Vemos que no dedo anelar da mão direita de cada viajante reverbera um grande e reluzente anel de brilhante, os dedos da mão esquerda foram preenchidos com anéis de rubi e esmeralda. Os dentes de ouro também reluzem diante dos parcos raios de sol recobertos por uma densa camada cinza. É verdade que só alguns gozam destes benefícios tanto de transporte quanto de embelezamento. Só os novos privilegiados do sistema.
A possibilidade de hospedagem resume-se aos modelos pequenos, médios, grandes ou conversíveis. Depende do poder aquisitivo. Nosso hóspede optou por um modelo Jaguar. Seu interior revestido de veludo amarelo com pintas escurecidas lhe dá o conforto necessário para algumas horas de sonho ajudado pelos eflúvios adormecedores que saem do painel de controle. Desta forma, o viajante não se incomoda com o aperto do carro e, por indução artificial, relaxa sua musculatura tensa e cansada, e dorme sonhando praias ensolaradas, com palmeiras, aves e frutos.
A vida é um sonho que plasmamos na realidade. Essa é a verdade!
Só não é sustentável quando o sonho de um atropela o sonho de outros. Por isso, o certo é sonharmos todos juntos, no mesmo sentido e direção, em beneficio de todos, dos que já cá estão, daqueles que ainda virão.
E, concluímos dessa viagem a Julilândia que é possível, sim, essa tal de sustentabilidade, mas desde que as relações que unem os seres, humanos e não humanos, integrantes de um ecossistema planetário, sejam também relações sustentáveis.
Aqui fica nossa proposta: arregacemos as mangas, joguemos fora o que não presta (sem atrapalhar o que presta), sonhemos e construamos, juntos, o nosso futuro melhor.
Que este sonho da Julilândia não seja esquecido, anulado, apagado. Afinal, temos mesmo que proteger a casa, Terra, onde habitamos, e transformá-la no “melhor lugar do mundo”, isto é, numa Julilândia. Uma cidade de sonho é um sonho de cidade, de vida, de Humanidade.

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