Ensaio sobre o sublime e o pitoresco (sem pretensões de estudo acadêmico)

O sublime do pitoresco – a natureza.
A estatura dos homens e dos vulcões.
A poesia – Florbela Espanca.
Assim é! Nascemos neste planeta, água, muita água, e terra, alguma terra, firme ou nem tão firme, montanhas e lagos, abismos e negrumes. Os cumes afiados das montanhas e a profundidade das fossas marinhas nos dão os parâmetros de “maiores alturas, maiores distâncias, maiores profundidades”. Da Terra à Lua, ilusão das noites de plenilúnio, é perto como daqui ali. As florestas, seus bichos, a correria dos insetos sob o colchão de folhas, a lagarta verde, resplandecente que, tranquilamente mordisca a folha nova do arbusto florido; ou o rugir da onça, o grito da arara, e o chapinhar do jacaré de papo amarelo no banhado ali perto – boemias de sons naturais que povoam as noites densas das matas tropicais. Tudo isso é beleza deste planeta, Planeta Azul, Planeta água, Planeta Terra. Beleza sublime pois maravilhosa, sublime pois irradiante de divindade, sublime pois criada por Deus, Pai Maior do Universo, Olorum. Beleza sublime pois, que nos mostra, àqueles que sabem ver, sentir, que o ser humano, em seu porte ereto, à imagem e semelhança, física e divina, também é parte da criação. Nada mais do que isso, uma parte da criação. E, como tal, dependente do ecossistema terráqueo, fundamental à manutenção da vida de todos os seres viventes e habitantes, animais, vegetais, minerais e, até humanos. Aí está sua verdadeira estatura de HOMO ERECTUS; a estatura de um anão humano que transita, quase livremente, pela crosta do planeta, crendo que o governa, crendo que o domina, crendo que é seu Deus mas, na verdade, sendo somente, e como todos, uma partícula da criação divina, sua real estatura. Por isso, essa verdade, o sublime aparece – quando a Terra treme, solta golfadas de lava incandescente, troveja com as nuvens de chuva, pretas, monstruosas, e relampeja com os raios assustadores que estouram no firmamento das tempestades. Sublime natureza! E, tão pitoresca quando alimenta as memórias, lembranças, as saudades de cada um de nós. Assim só, sublime pitoresca natureza.
VULCÕES – Florbela Espanca
Tudo é frio e gelado. O gume dum punhal
Não tem a lividez sinistra da montanha
Quando a noite a inunda dum manto sem igual
De neve branca e fria onde o luar se banha.
No entanto que fogo, que lavas, a montanha
Oculta no seu seio de lividez fatal!
Tudo é quente lá dentro…e que paixão tamanha
A fria neve envolve em seu vestido ideal!
No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões…
Assim quando eu te falo alegre, friamente,
Sem um tremor de voz, mal sabes tu que estranha
Paixão palpita e ruge em mim doida e fremente!
Florbela Espanca (“Trocando Olhares”, 04/05/1916)*
*Florbela Espanca é poetisa portuguesa, natural de Vila Viçosa, Foz do Douro, onde nasceu em 08/12/1894). Sua poesia, direta, precisa, é ornada com sensibilidade tamanha que envolve o leitor em seu movimento amoroso. No entanto, tão belas e pitorescas figuras, de linguagem, escondem o risco de e sobre a vida. Risco esse que levou Florbela deste mundo a 08/12/1930, de suicídio, cometido em Matosinhos. E, justamente este fato, de sua morte abruta, é que comprova o sublime em sua poesia no melhor estilo de Longinos e Kant pois, que demonstra, pelo seu simples fato, os perigos de se viver crendo no sublime da pitoresca paisagem da vida cotidiana.
Transcrevo a discussão, para melhor entendimento, que desse fato resultou:
“A causa da morte de Florbela tem sido motivo de estudo para vários dos seus biógrafos, ocupando parte significativa das obras a seu respeito.
As opiniões dividem-se, e mesmo alguns dos seus mais incisivos estudiosos, como Rui Guedes ou Agustina Bessa Luís contrapõem diversos argumentos que justificariam poder falar-se de suicídio premeditado (recorrendo nomeadamente a excertos da sua obra, do seu diário ou à correspondência enviada pela poetisa) a outros, que apontam para o facto de se ter tratado de um acidente, ou simplesmente, do culminar das doenças que afectavam a poetisa.
Outros porém, como Maria Alexandrina ou António Freire recusam liminarmente a hipótese de suicídio, baseando-se no gravíssimo estado emocional e físico de Florbela.”
Sublime é a natureza, seus movimentos e aqueles que a habitam.
Assim termina tudo. FIM

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