No grande ciclo que é a vida, dizem haver um tempo para tudo. Suponho que essa seja a razão pela qual deixam a nossa imaginação voar livremente quando sabem que não aterrará em lado algum. Como crianças, fazem-nos acreditar que seremos tudo o que quisermos: médicos, astronautas, advogados, biólogos ou escritores. Nenhuma profissão é inatingível. E nós sonhamos. Sonhamos que teremos sucesso e seremos adorados por aqueles que nos rodeiam; que o mundo é um lugar com oportunidades infinitas às quais nos podemos agarrar.
E enquanto sonhar nos é permitido, desejamos, ansiosamente, crescer e fazer parte desse mundo incrível de que nos falam, onde seremos pessoas independentes e realizadas.
Um dia, eventualmente, crescemos. Olhamos à volta e, na verdade, nada é tão simples como nos fizeram crer. Percebemos que é preciso trabalhar arduamente para conseguir avançar, a passo de caracol, até à meta, seja ela qual for. Fazemos as malas, dizemos adeus e mudamos de casa. No meio da roupa, uma foto de um outro “eu”, um pequeno ser humano feliz, no qual nos revemos apenas em alguns traços.
Nas gavetas deixámos os álbuns, os brinquedos, os livros de contos de fadas, enfim, as recordações. É tempo de escolher o que realmente queremos ser “quando formos grandes” e, desta vez, os conselhos são outros.
Dizem-nos agora que, afinal, nem todas as profissões são aprovadas pela sociedade capitalista – a não serem que não façamos questão de sobreviver nela.
As complicações são acrescidas quando o momento de fazer essa decisão chega em tempos de crise, num Portugal nada preparado para mais uma onda de jovens ansiosos por mostrar o que valem.
As crianças especiais que diziam sermos são, no final de contas, comuns mortais, a quem deve importar, acima de tudo, escolher um emprego estável, que preencha mais a carteira do que o intelecto. Alguns de nós saberão que os sonhos, como as memórias, devem ser postos de parte. Que a vida já é difícil o suficiente para os realistas e que o é, ainda mais, para os sonhadores. Eu não soube.
Hoje pergunto-me se sou culpada por ter nascido num período de crise eminente que decidiu estourar a meio da minha batalha, tal bomba-relógio. O país em que cresci dá-me, agora, menos razões para ficar do que para sair, mais razões para desistir do que para lutar.
Em vias de terminar uma licenciatura, sinto-me, todos os dias, a remar contra a maré e dou por mim a temer a hora em que serei mais uma na fila do centro de emprego. Para trás ficam mais memórias, mais álbuns, mais livros. Daqui a uns anos talvez tropece neles, guardados em caixotes poeirentos do sótão. Por enquanto, continuarei a fazer planos: arranjar um estágio, encontrar um emprego, juntar alguns euros, estudar um pouco mais. Os sonhos, esses, permanecem, ainda que esmorecidos. Quiseram que os fechasse numa gaveta, mas são grandes demais.
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

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