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Recensão Crítica do livro: Portugal Hoje – O medo de existir

19 de June de 2019 by MRock 1 Comment

Recensão Crítica do livro Portugal, Hoje – O medo de existir do autor José Gil (1.º excerto)

José Gil
Fonte: www.fnac.pt

O livro Portugal, Hoje – O medo de existir de José Gil, trata dos principais problemas psicossociológicos da sociedade portuguesa contemporânea, e da responsabilidade das instituições políticas do passado na actual conjectura nacional.

Para melhor elaborar a recensão crítica, decidi dividir o livro em duas partes: Na primeira parte, (da página 7 á página 73), explica-se a negatividade do país e dá-se conta da falta de acontecimentos positivos para “impulsionar” os indivíduos; esta primeira parte inicia-se com o subgrupo- Como convém televiver; neste subgrupo, dá-se a entender a expressão «é a vida» do apresentador da RTP, expressão essa que se torna relativa no mundo da informação , pois, as notícias de raptos, violências etc., “misturam-se” com notícias felizes (ex. do nascimento do panda bebé na China), no caso das notícias de violência, é dada a tranquilidade da distância e não vale a pena preocuparmo-nos: O mau acontece lá longe- dando a minha opinião pessoal, posso afirmar que a expressão «é a vida», proferida pelo apresentador televisivo, procura anestesiar-nos, fazer-nos enquanto membros da sociedade aceitar situações inconcebíveis com a justificação da distância física/geográfica.

Ao pensar de forma aprofundada nessa expressão, vê-se que é uma frase insensível, não significativa, inexistente do ponto de vista intelectual, pois basicamente diz-nos para não raciocinar- instalação daquilo a que o autor posteriormente denominará como sendo um nevoeiro branco que não deixa agir e ver a gravidade das situações; a simples frase «é a vida», torna-se assim o travão á acção das pessoas, como se conclui pelos seguintes excertos da obra: «É a vida (…) é uma frase vazia, despida de conteúdo (…) injunção formal, nada diz, senão limites e regras para não pensar»; «é a vida!… é esta mistura confusa de transcendência- imanência da nossa vida que provoca um nevoeiro no espírito»; estas curtas transcrições remetem para o estado de passividade em que nos encontramos; a comunicação social não é alheia a estes factos, dado que é a primeira a difundir a aceitação sem oposição e inconsciente representada pela expressão referida , pois depositando grande confiança nos órgãos de comunicação em especial a televisão, os indivíduos deixam-se influenciar seguindo cegamente tudo aquilo que é transmitido e assim é passada a ideia de inactividade aos cidadãos. O “televiver”, a expressão «é a vida» e a consequente aceitação passiva estão assim inter-relacionados de forma a manter o nevoeiro na mentalidade social nacional e a contribuir para um certo stato quo.

Posteriormente, passa-se ao subgrupo de o país da não-inscrição; aqui, José Gil afirma que em Portugal nada acontece ou se inscreve, o povo português não tem vontade de se envolver no que quer que seja. A imobilidade impera. Após a leitura deste subgrupo, penso que o grande culpado desta falta de vontade generalizada de inscrição, foi a subjugação da sociedade portuguesa por parte do salazarismo- época em que apenas se enaltecia o ego patriótico. A não-inscrição, a irresponsabilidade inconsciente é assim um hábito entranhado pelo regime salazarista; a inscrição implica conceitos como acção, afirmação, decisão, com os quais o indivíduo encontra sentido para a sua existência, contudo, estes conceitos eram repudiados pela ditadura- a revolução do 25 de Abril, abriu a época de luta contra a não-inscrição; era urgente fazer o país ter desejo de se envolver em algo, inscrever-se, tomar decisões firmes, de forma “decidida”, mas, mais de 30 anos passados a situação continua inalterável: o salazarismo deixa ainda a sua marca- Portugal continua ainda embrenhado no eterno nevoeiro, sem vontade de “tomar rédeas” ou quaisquer posições; a nação está enterrada no branco psíquico; o povo português tem várias alterações de consciência que resulta da não-inscrição; José Gil dá o exemplo do condutor que pára no sinal vermelho e põe-se a pensar em outras coisas e «acorda» com o buzinar dos automóveis atrás dele após o sinal verde; este é um exemplo que explica como a sociedade nacional sofre as consequências da não-inscrição.

O próximo tema desta primeira parte é de grande importância, pois vai lançar as bases para entender a falta de atitudes por parte das entidades públicas para diminuir o tal nevoeiro/medo: trata-se do espaço não público- O autor refere que após o 25 de Abril ainda se ouve dizer que está tudo na mesma e que há uma realidade mal definida a que se acordou chamar «espaço público», ora antes de mais é necessário dar a noção de espaço público, e, dando a minha própria definição, posso afirmar que corresponde a um espaço constituído pela união dos órgãos de comunicação social através da realização de debates de vários tipos, com figuras públicas ou não, de forma a que os cidadãos possam ser devidamente informados e, entre si criar uma opinião comum de modo a contribuir para o melhoramento, liberdade e expressão de um determinado local.

O que hoje em dia se conhece como espaço público, nem sempre foi como actualmente: Durante o regime ditatorial de Salazar, este espaço foi amordaçado, desprezado, muito pressionado de forma negativa, condenado à clandestinidade e à ilegalidade, tendo mesmo desaparecido, muito por força dos órgãos de controlo (censura) do Estado, que levavam a cabo uma série de atentados contra as outras liberdades, encobertos «por fachada caricatural de liberdades públicas». Três décadas depois, o que resultou desta mutilação do espaço público? A completa descoordenação e, sobretudo o «natural» medo- observa-se que mesmo em tempo de liberdade, as pessoas ainda mostram um certo receio em exprimirem abertamente os seus pontos de vista, e revelam-se reticentes em trocar ideias publicamente sobre praticamente tudo: cultura, sociedade, e principalmente política- esta é uma das muitas sequelas do salazarismo e seus métodos de repressão.

Além do receio dos cidadãos, há ainda a ausência de debate político, o aborrecimento em relação aos intervenientes políticos/públicos como razões para a denominação de espaço não público. Penso que, o espaço, para se tornar verdadeiramente público tem que vencer os receios para dar a contribuição necessária para o desenvolvimento social, o «público» é benéfico porque alarga o meio a todos; discordo assim da posição de José Gil que afirma que a palavra público não convém; acho que se quisermos que a nossa sociedade desabroche e «saia do esconderijo», o «público» é a única solução, caso contrário, apenas nos restará o branco e o inevitável nevoeiro que nos cobre e a prevalência do espaço não público.

Passo agora ao tema do conhecimento da democracia; neste sector, trata-se da questão do regime democrático e dos problemas que podem advir no caso de os indivíduos não terem total conhecimento das suas liberdades. Depois da leitura deste subgrupo, concluo que a liberdade vai demorar ainda muito tempo para se fixar na mentalidade social portuguesa, pois como o próprio José Gil refere, em Portugal, o nível de conhecimento é muito baixo; conhecimento e democracia são dois conceitos que estão separados; e para vencer este tipo de dificuldades que a liberdade encontra, é urgente envolver os indivíduos de forma a afastar este tipo de separação(…)

Filed Under: Educação Cívica Tagged With: acções humanistas, ajuda social, civismo, Sociedade

Comments

  1. Fil says

    23 de September de 2016 at 23:14

    Gostei muito da sua recensão ao livro de José GIl.
    Obrigada

    Reply

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