Descrição da “Arcádia”

A Arcádia é descrita pela tradição helénica como sendo a casa de Pã, o Deus dos pastores e tocador de flauta, uma região inóspita, pedregosa, pouco rica, cujos habitantes eram dotados do génio musical, mas também de uma ignorância empedernida, contraditória com um local idílico como os renascentistas e românticos a apresentaram. Teócrito, nos Idílios, situa-a geograficamente na Sicília, porém, é Virgílio que a desloca para uma paisagem idealizada e espiritual, nas Éclogas.
O poeta italiano Jacopo Sannazaro

Jacopo Sannazaro, poeta italiano renascentista autor da novela Arcádia, é herdeiro directo desta construção virgiliana de um lugar utópico habitado por filósofos e poetas que cantam e dançam, celebrando a vida e o amor, na companhia das ninfas. No entanto, há um elemento perturbador da tranquilidade na Arcádia – a presença da morte, através dos túmulos de Androgeo (grande poeta) e Massilia (sibila detentora da verdade), que propicia momentos de reflexão e levanta uma problemática: em que sentido se estabelece o diálogo entre a vida e a morte, quem é verdadeiramente o emissor e o receptor da mensagem inscrita no túmulo ou nele implícita? Os pastores que os encontram são, desta forma, impelidos a uma reflexão profunda, será a pedra tumular que envia uma mensagem para quem o lê ou quem o lê entra em diálogo com o «rosto» que se representa pelo túmulo?
O diálogo reflexivo entre a vida e a morte
Por um lado, podemos assumir que este diálogo reflexivo tão só incide sobre a finidade humana; por outro lado, não devemos descurar que a inclusão da morte no ambiente idílico da Arcádia, por Sannazaro, serve propósitos meta-literários, para além da reflexão imediata já mencionada. O autor da novela sabe que, para se fazer literatura, é preciso fazer assentar o novo texto nas ruínas dos textos antigos – a literatura nova baseada nas ruínas dos clássicos, no que deles retira, pelo que a criação literária implica encontrar a morte, cada novo texto determina a morte do anterior.
A batalha entre o escritor-criador e o seu precursor, segundo Harold Bloom
Assim como os pastores não conseguiram evitar os túmulos de Androgeo e Massilia, antes foram atraídos para eles, o novo autor é incapaz de contornar as ruínas dos textos antigos, ou anteriores, visto não haver literatura sem literatura. Trava-se então a batalha, que Harold Bloom refere em A Angústia da Influência, entre o escritor-criador e o seu precursor, num processo de angústia permanente da incerteza de a conseguir ganhar, da possibilidade de que o seu texto não seja mais do que a mera repetição do que já foi escrito.
Também segundo Bloom, um texto nunca se lê correctamente – daí a necessária reflexão e levantamento de possíveis leituras, mesmo que divergentes –, ler mal é a condição necessária para se ser um escritor forte, um escritor que vence as ruínas do texto precedente, ainda que o seu texto esteja condenado a morrer, a ser um túmulo, ruína de textos vindouros.
Pode dizer-se que a morte é condição de vida, lembrando a efemeridade do que se constrói, mesmo que seja um lugar de felicidade ou texto que vai resistindo ao tempo.

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