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Sobre a vida e costumes do povo caiçara paulista

27 de December de 2018 by ABW 5 Comments

Cultura Caiçara, resgate de um povo

cultura caiçara
Fonte: www.agbsaopaulo.org.br

Os povos que se estabelecem nos ambientes litorâneos, vivendo da pesca e caça, cultivando o solo em situações de maresia e salinidade, apresentam características semelhantes que são resultado do seu condicionamento e adaptação às condições climáticas e ao uso direto dos recursos naturais. Ventos, umidade, solos deficientes, matas nativas, condições de sol e chuva peculiares à região em que vivem, são esses os parâmetros que moldam as comunidades litorâneas e conformam a expressão da cultura caiçara. Essa é uma verdade universal, se vê repetida em todas as praias de todos os mares do planeta. Desta fazem parte também os povos litorâneos brasileiros, dentre eles o caiçara.

Considera-se cultura caiçara aquela que pertence ao povo estabelecido no litoral paulista desde os primórdios da colonização do território pelos portugueses, século XVI. Assim também, são consideradas caiçaras aquelas comunidades que se estendem, a partir de São Paulo, ao sul até a Ilha de Santa Catarina e, ao norte, até o litoral do Espírito Santo. Supõe-se que estes foram os trilhos de colonização e estabelecimento populacional e onde, ainda hoje, se verificam parâmetros antropológicos semelhantes em comunidades tradicionais.

A pesquisa em questão, que deu origem ao livro “Cultura Caiçara, resgate de um povo“, editado em 2005, teve como proposta recolher dados e histórias nas comunidades tradicionais remanescentes no litoral paulista, abrangendo municípios da Baixada Santista e litoral sul, até Cananéia, divisa com o Paraná. Nesse universo foram detectadas 20 comunidades nas quais ainda se encontra vívida “a moda caiçara de viver”, apesar da pressão urbana e da sociedade moderna. Em muitos casos, foram recolhidas informações através de entrevistas e depoimentos recolhidos entre os mais idosos das comunidades de cultura caiçara, muitos dos quais, hoje em dia já não estão entre nós. Foi revisada a bibliografia existente sobre as comunidades tradicionais, estudos estes realizados principalmente na região da Juréia e o Lagamar, em Iguape e Cananéia. Também levamos em conta vários estudos sobre as comunidades caiçaras do litoral norte do Estado, bem mais conhecidas do que estas do litoral sul.

Porém, a identificação das características típicas das comunidades de cultura caiçara do litoral sul paulista foi um trabalho de pesquisa que nos proporcionou profundo mergulho na História verdadeira dessa parte do país.

Em busca da cultura caiçara!

Descobrimento do Brasil - A cultura caiçara
Fonte: www.brasilescola.com

Procurando a cultura caiçara, chegamos aos primeiros momentos do descobrimento do Brasil e antes até. Falamos, no caso, de quando aqui aportaram os primeiros europeus, aventureiros, degredados, os diferentes.

A memória de algumas das pessoas entrevistadas nos remeteu a figuras históricas, como José Bonifácio de Andrada e Silva, recordado como distante, porém certo, ancestral de famílias de cultura caiçara da região. Cabe aqui quem foi, na história brasileira, José Bonifácio, conhecido como o “Patriarca da Independência Nacional em 1822, brasileiro formado na Universidade de Coimbra, levou conhecimentos do renascimento para o Brasil ainda dominado por uma cultura medieval, assessorou D. Pedro I no ato da Independência e foi tutor de D. Pedro II”.

São essas as lembranças da cultura caiçara que Faustina Messias, Benedita Ribeiro e Maria Marques, hoje senhoras na casa dos 90 anos, ainda recordam. Casos e ditos de seus avós, os primeiros a chegarem à região de Itanhaém. Na Serra da Juréia e Itatins, faixa litorânea que vai de Peruíbe a Iguape, são figuras como José Carvalho, “seu” Alaôr, Pradel e o falecido Satiro que, com suas recordações de várias décadas, nos ajudaram a tecer uma imagem da história das comunidades caiçaras da região. Dentre essas, algumas famílias antigas de cultura caiçara reconhecem e honram um ancestral escravo e, outras, orgulham-se de descender de algum grande senhor; a origem indígena também não é negada – quando a avó era muito brava bem poderia ter sido parente de “bugre”, como eram chamados os mais bravios entre os indígenas aqui conhecidos. Muito antiga é a lembrança – talvez através dessas memórias possamos determinar o período de existência deste povo. Se considerarmos como pertencentes à cultura caiçara os primeiros filhos mestiços da nacionalidade brasileira então o “povo caiçara” começou a se formar por volta de 1500, sob a influência marcante das culturas indígenas litorâneas misturadas à cultura lusitana. Quinhentos anos de cultura brasileira.

As bases da cultura caiçara

O que podemos afirmar, com certeza, é que as bases da cultura caiçara se fundamentam na mistura bem equilibrada da sabedoria indígena e africana, que tinham conhecimentos de técnicas primitivas de cultivo e pesca adaptados às condições locais que a natureza oferecia, com os conhecimentos e costumes trazidos pelos europeus. A prevalência de indígenas e africanos também é responsável pela adaptação biológica desenvolvida pelos caiçaras, os seus conhecimentos de alimentação, saúde e sobrevivência em estrita dependência da natureza. Nas comunidades caiçaras constata-se a presença de descendentes de portugueses, espanhóis e, mais recentemente, italianos. Essa variação se verifica, em cada região do litoral sul, quando comparamos as artes culinárias e os temperos utilizados, o uso de ervas curativas que até hoje são consagradas na farmacopeia nacional, suas crenças e mitos, derivados tanto da compreensão de mundo indígena quanto do respeito africano às forças da natureza e, muito influenciados pelo trabalho de jesuítas. São esses os parâmetros que fundamentam essa cultura popular. Pode-se afirmar que esta é a mesma base étnica da cultura caipira que povoa o interior de São Paulo, como se do mesmo povo se tratasse, a mesma “nação” alojada em espaços ambientais diferentes e sob influência marcante do meio ambiente que define sua forma de viver.

A visão romântica que temos dessas populações litorâneas, vivendo em paradisíacas paisagens, em praias de areias brancas junto ao mar fartamente piscoso, emolduradas pela rica floresta tropical, é perigosamente enganadora. O caiçara muito penou, e ainda pena, para sobreviver do fruto gerado pelo seu trabalho artesanal.

Nesse universo ainda resta muito para se conhecer e preservar: uso das plantas medicinais da Mata Atlântica, o manejo das fibras para o fabrico de cestaria, o fandango e toda uma musicalidade própria de instrumentos simples e sonoridade arcaica. O artesanato, os conhecimentos de medicina popular, a compilação de músicas e receitas, a organização das memórias mais antigas, a genealogia das comunidades caiçaras – cada um desses aspectos poderia ser ampliado visando à recuperação de uma riquíssima memória cultural.

A extinção das comunidades caiçaras

Extinção das comunidades de cultura caiçara
Fonte: http://4.bp.blogspot.com

As comunidades caiçaras estão desaparecendo: vão-se os mais idosos levando consigo a memória histórica e cultural desse que é um dos povos brasileiros. Seus conhecimentos são vastos, devemos estudá-los, precisamos reconhecê-los. A sustentabilidade ambiental do nosso litoral dependerá também da boa aplicação destes conhecimentos e suas heranças, dessa memória técnica tão habituada às adversidades naturais e a tirar o melhor proveito das riquezas disponíveis.

A história de cada um dos povos que compõe o Povo Brasileiro precisa ser profundamente pesquisada, seus dados catalogados, seus valores difundidos, seus ensinamentos aproveitados.

A sensação que nos fica é a de que não pudemos ainda recolher sequer as informações suficientes para uma análise profunda e detalhada da cultura caiçara. Mesmo assim, o trabalho valeu a pena, levantamos muitos porquês, remexemos em muitas memórias, e hoje temos uma ideia bem mais completa do que antes. Ouvimos muitas lendas, reconhecemos muitas crenças, assistimos a choros sentidos e reclamações verdadeiras. Este povo foi esquecido, mas está vivo. Merece todo o nosso respeito. Ouçamos o caiçara e sua hist

Filed Under: Área de Humanidades Tagged With: Ambiente, ciências alternativas, Cultura, defesa do ambiente, ensino cientifico, experiências cientificas, investigação científica, Liberdade, Sentido de Vida, Sociedade, Trabalho

Comments

  1. ISIDOR PRENAFETA says

    26 de April de 2016 at 11:54

    Pregunta para Alice Branco:
    Me gustaría saber el origen primitivo de los caiçaras, es decir, de dónde procedían antes de que se mezclara la raza con negros y europeos.
    Comparto contigo totalmente el amor por la Naturaleza.
    Espero que entiendas el idioma español como yo entiendo el portugués, aunque no lo hablo.
    Un saludo desde España.

    Isidor

    Reply
    • Willian Henrique Andrade says

      21 de June de 2017 at 18:26

      oi, os caiçaras são descendentes de indígenas do litoral do brasil que se misturaram com negros e brancos eles tem sua cultura baseada nos conhecimentos indígenas e cultura pesqueira

      Reply
    • Alice Branco Weffort says

      14 de July de 2017 at 12:47

      Hola Ysidor, mucho me gustaria saber como resultó tu trabajo – y el libro.

      Abrazos

      Reply
  2. Angélica Souza says

    7 de June de 2018 at 20:24

    Está se perdendo por causas das leis q nos impedem de dar continuidade não se pode mais pescar por culpa da pesca industrial fazem leis onde nosso povo sofre com esse descaso, não ah mais terras para plantar nem ranchos para guardar as canoas e redes por causa da especulação imobiliária.

    Reply
  3. Erivanigama says

    13 de March de 2019 at 15:42

    Verdade

    Reply

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