Português Juvenil!
Não há exagero em afirmar que a linguagem através das suas variadas vertentes- oral, pictórica, gestual, musical, físico-comportamental, tem sido a grande modeladora e construtora do mundo, possibilitando a comunicação e a consequente troca de impressões, métodos e ideias entre vários povos, tendo esses mesmos povos, oriundos de várias nações, adoptado uma linguagem oral própria (que se sobrepõe às outras vertentes referidas pela sua especificidade), de forma a facilitar a comunicação doméstica. O português não é assim excepção; falado por milhões de pessoas por todo o mundo, é das línguas mais antigas, contudo, em Portugal Continental, tem-se vindo a assistir a um fenómeno inédito: A “velha” língua portuguesa, está a sofrer um processo de rejuvenescimento perpretado pelas gerações mais jovens, ou seja, os indivíduos portugueses jovens do sexo masculino e feminino entre os 12 e os 29 anos de idade, aproximadamente, têm formatado a língua de Camões ao seu próprio estilo, formando o que eu designo neste trabalho como Português Juvenil, caracterizado pelo grande uso do calão/gíria que é um fenómeno de linguagem especial usada por certos grupos sociais pertencentes a uma classe em que se usam palavras não convencionais para designar outras palavras formais da língua. Esta português juvenil é uma gíria grupal, possuindo um carácter criptográfico, isto é, uma linguagem codificada de tal forma que em certos casos, dificilmente é percebida por quem não pertence ao grupo.
Os “portugueses de amanhã” e a língua portuguesa
Expressões como yá meu, bué e tá-se bem, que hoje se ouvem frequentemente vindos dos “portugueses de amanhã”, dão conta desta espantosa juvenilização da língua lusa, que se tem vindo a verificar desde o início da década de 90 do século XX e que embora não seja discutida abertamente, implicitamente se vai impondo cada vez mais no panorama linguístico nacional. Esta revolução na língua portuguesa continental está sem dúvida a marcar a época actual em que a própria classe adulta toma parte na questão de forma original sendo exemplo disso as declarações de vários intelectuais apelidando a geração actual como geração rasca, isto é um exemplo do marco imposto por esta situação. Este novo português juvenil assume-se como língua mãe dos mais jovens exercendo a sua influência e modelando o seu vocabulário desde muito cedo sendo frequente ouvir-se crianças de 5 e 7 anos a usar este calão, isto numa altura em que iniciam o seu percurso escolar e não detêm sequer as regras básicas do português padrão, o que deixa antever o poder deste fenómeno.
O início do português juvenil

Este português juvenil começou a impor-se com mais vigor, a partir de inícios dos anos 90, em que diversas palavras e expressões já estavam a ser “transformadas” pelos mais novos, como embora, que passa a ´bora, ou m´bora; nesta altura, por exemplo, a frase: «vamos embora que já é tarde, não sejas bebé», passa no português juvenil, a «m´bora lá que já é bueda tarde, não sejas corte», corte este que vem mais tarde a ser substituído por beto ou betinho, que designa aquele que segue sempre as regras, é sempre certinho, sendo, por isso, alvo de chacota por parte dos outros. Assim, após este prelúdio, o português juvenil, abriu caminho, sendo incapaz, a certos níveis, de ser percebida pelos mais velhos: os pais, professores, a não ser que estejam bem informados acerca da linguagem juvenil, passarão muito tempo a tentar perceber sobre o que falam dois adolescentes quando se encontram. Pegando neste caso e fazendo uma breve análise psicológica deste facto, observa-se que os jovens, com esta linguagem formaram (e formam), uma espécie de elite linguística própria rebelde e de desalinhamento em relação ao mundo adulto, cuja “missão” básica é a de integração no grupo, de ser compreendido e aceite.
A contínua mudança do português juvenil
Este português juvenil está em contínua mutação- exs. Um pouco/um coche/uma beca; queda/tralho/malho; pá/tipo- este tipo é um conector que funciona como um tique linguístico muito usado entre os jovens e ouvido com grande frequência em conversas, ex. «tipo eu quis candidatar-me àquela vaga, mas tipo, sabes como é que é, tipo…» isto é um exemplo de como esta nova “linguagem de calão” é usada pelos mais novos de forma inconsciente, acontecendo comigo frequentemente e dei-me conta disso mesmo quando conversava com um colega sobre este trabalho e disse algo do género: «- Tipo, sabes, eu a Linguística Geral vou fazer tipo um trabalho sobre o português dos jovens e essas cenas e tipo há bué cenas que tenho que ver.»
Este à parte revela bem a evolução desta nova linguagem que é posta em prática de forma automática e involuntária em que frases e relatos podem não fazer sentido e que quando fazem terminam bruscamente com o uso de outra expressão com o mesmo valor de tipo, o “não sei quê” – «Ena pá, ontem, tipo, quando ia na estrada aconteceu-me uma cena espectacular! Ia um carro a duzentos à hora e de repente passa um camião, mete-se à frente e… não sei quê!» .E pronto, acaba a frase… quando se começava a tornar interessante, perde o interesse todo. Outro ex. do português juvenil «Eh pá, curte-me só esta cena… Tipo ia eu na rua, tipo na boa, tás a ver? E depois não sei quê…»e acaba, deixando o ouvinte na expectativa. Estes exemplos representam bem a involuntariedade e a juventude desta linguagem.
A “evolução” do português juvenil

Outro sinal de evolução ao longo destes quase 20 anos de português juvenil, é o facto de começar a haver um certo marco pessoal de cada um, ou seja, ao passo que em anos anteriores este calão português “obedecia” a uma certa ordem em que todos usavam as mesmas expressões como o bué, e outras, hoje são os jovens que vão criando individualmente o seu paleio, neste caso dou outro exemplo pessoal em que me encontrava numa loja de informática com dois amigos e há um deles que começa a cantar e um que diz: «´tás tod´ardido», deduzi eu, que ardido seria extrovertido num sentido negativo ou algo assim. Como este, existem vários outros casos denotadores da marca pessoal e de progresso do português juvenil: dar bandeira, que significa chamar a atenção de um modo negativo, passou a dar estrilho, expressão esta que já está a tornar-se ultrapassada segundo os padrões habituais assim como malta que passou a pessoal, aquele rapaz, passou a aquele gajo ou aquele bacano ou ainda, aquele oui, esta última mais usada por descendentes de imigrantes africanos. Outra marca evolutiva desta linguagem é a supressão de vogais- «tud´ fixe?, yá táss´ bem, entre outros.

Gostei do seu artigo.
Estou a escrever sobre um tema, mais ligado a neurolinguística, sobre “Palavras e frases que destroem a sua auto-estima” e este artigo de alguma forma ajudou-me. Abraço.
Rui Freitas
http://www.virtualmarketingpro.com/blog/coachingmentors
Obrigado.
Sou estudante de arquitectura. Gostei do artigo, pois passei a compriender melhor uque se passa no meu ambiente de interação.
Aprecio terem gostado do meu excerto abc
gostei da abordagem. farei uso para contextualizar este tema no meu programa
O que eu queria mesmo era a resposta a isto.
Emingl^s da América diz-se “A velha Sally” como expressão quase carinhosa. “A velha Sally não flava muito….”
Em português não se usa nenhum adjectivo ou sou eu que não tenho treino de gíria. Alguém pode sugerir alguma coisa? Obrigada,
Paula Reis