O nível de escravatura, sob diversos prismas, a que estão sujeitos os mais diversos povos e etnias um pouco por todo o mundo, remetem-nos para um estado de “anquilosamento” cívico para o qual, actualmente, dificilmente aceitamos explicação plausível, mas que, em tempos mais remotos, durante séculos e séculos, marcou a vida do homem na sua busca desenfreada pela conquista do mundo e pela submissão do outro, seu par.
A escravatura no Brasil
No Brasil, o avanço deste estado de submissão ao outro, no período dos Descobrimentos, caminhou a par de uma desterritorialização dos povos indígenas, sendo estes vistos com desdém pelos europeus devido às práticas culturais e quotidianas que, em muitos aspectos, se situavam nos antípodas da cultura ocidental da época. O trato infligido aos indígenas provocou uma tal necessidade de reforço da mão-de-obra que os colonizadores se viram obrigados a atravessar o Oceano Atlântico em busca de mais e melhores escravos, que viajavam em circunstâncias não coincidentes com a condição e dignidades humanas. Durante anos, a conivência e convivência com esta realidade da escravatura no Brasil decorreu, não sem sobressaltos, entre colonizados e colonizadores servindo os mais diversos interesses. O conceito de escravatura associado ao poder político e económico atingiu o máximo esplendor protelando assim formas mais assertivas e concretas de abolição. A causa abolicionista viria a ter o seu grande apoio com a vinda das Luzes, ficando o dia 13 de Maio de 1888 marcado por momentos “Áureos” com a publicação de uma lei que selava, de forma oficiosa, o fim da escravatura no Brasil.

Dotada de uma educação um tanto ou quanto liberal e de uma vivência marcada pela dádiva aos mais necessitados, D. Isabel (princesa imperial do Brasil e trineta de D. Maria I), arreigada a uma certa grandeza ou talvez ameaçada por um Estado à beira da insurreição, que assombrava o poder imperial e o mundo esclavagista, assina a Lei Áurea, delegando poderes no Ministro da Agricultura, Rodrigo Augusto da Silva. Do palácio situado no Rio de Janeiro, o dito ministro apresentava, por ordem de “Sua Alteza Imperial, Regente em nome de sua Majestade o Imperador”[i] (D. Pedro II), a proposta de declarar extinta a escravatura no Brasil, revogando-se igualmente todas as disposições em contrário.
Longe de consensos, foi igualmente de longe uma lei perfeita no sentido lato de abertura à cidadania, uma vez que negava a negros e mulatos o acesso à terra e moradia. Não obstante, foi igualmente sem dúvida um ponto de partida e um passo gigantesco no trilho para a construção de uma sociedade mais humanitária, em terras sul-americanas. Quem sofria perante a escravatura no Brasil assistia pela segunda vez a um novo “Grito do Ipiranga”.
A escravatura nos dias de hoje
Já passaram 125 anos, mas a escravatura no Brasil permaneceu por muitos e arrastados anos. Lá, como em tantos pedaços deste mundo (dos quais África é um dos mais representativos), ainda se faz sentir esta fissura na humanidade de forma um tanto ou quanto camuflada ou transmutada em serviço consentido. Muitos trabalhadores rurais brasileiros permanecem ainda sob o forte jugo de um patronato que não reconhece o seu trabalho de forma digna, sendo muitos deles remunerados muito abaixo do valor dos seus serviços; crianças são vendidas pelas próprias famílias e sujeitas a trabalhos desumanos; mulheres que são aliciadas a procurar uma nova vida e arriscam um destino tantas vezes nefasto. Segundo dados da Secretaria de Políticas para as Mulheres, nos primeiros seis meses de 2012, este tipo de cativeiro aumentou 1.500%, no Brasil[ii]. É caso para perguntar se não será isto um mal geral? Afinal a “escravatura no Brasil” existe mesmo, adoptando vários rostos. E em Portugal, onde estarão os rostos da “escravatura”?
[i] Segundo Lei n.º 3.353, de 13 de maio de 1888. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1851-1900/L3353.htm
[ii] Vide em RTP Notícias (8/10/ 2013) http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=686159&tm=7&layout=121&visual=49

Muitos foram os tipos de escravatura praticados pelos seres humanos ao longo dos séculos. Infelizmente a necessidade de dominar o outro parece ser um traço de carácter da humanidade.
É de louvar que se pense e reflicta sobre este tema que (infelizmente!) está longe de ser algo que conste apenas nos livros de História.
Parabéns pelo texto, Sónia!
Olá minha querida,
Obrigada pelo contributo. É importante que continuemos com a mente aberta e atentos a tudo! Todos juntos faremos uma voz maior! beijinhos
Bom texto Sónia. Subscrevo o comentário anterior. Com o desemprego atual, no qual infelizmente me encontro, são bons exemplos de escravatura alguns dos anúncios que tenho lido e até mesmo entrevistas que tenho ido. Valem-se de haver muita procura e as condições apresentadas roçam o limite da escravatura, nalguns casos.
Beijinhos, Sónia
Olá Nuno,
Tão verdade, tão verdade o teu desabafo! Muitas são as “escravaturas” de hoje! Continuaremos a lutar, pelo menos a voz não a podem calar! Boa sorte!
Abraço
como sabes, movo-me pelos meandros da gestão, e todos os dias ,ouço atrocidades. A maior delas, foi ouvir dizer que os “números (leia-se €uros) são vida!” Fiquei possesso! E o pouco de mim que era capitalista morreu ali, na hora!
Sempre me fiz seguir pela vertente mais humanista da vida, prezando mais pessoas que objectos, escolhendo mais as pessoas que os objectos, no entanto a sociedade moderna sofre de uma escravatura monetária e consumista difícil de evitar.
Daí prezar uma educação de cariz humanista. Daí ter uma educação de cariz humanista.
tema muitíssimo pertinente!
Ola Stora adorei aquilo que escreveu é pura verdade e a realidade dos nossos dias.
Tenho sorte de ser quem sou mas o mundo e injusto e quem sofre sao as crianças sem culpa nenhuma por vezes tentamos ajudar mas parece que toda a ajuda e pouca e temos que lutar pelos nossos direitos
Muito bem Carolina,
Espero que esteja a correr tudo bem consigo! A missão que tem na vida profissional é muito importante! Coragem! Beijinhos
Não gosto de escravatura mas também quem e que gosta de escravatura. Os teus comentários são muito interessantes e já aprendi mais alguma coisa e obrigado. Gosto muito da tua foto de perfil és bonita.
desculpa mas não era para aqui adeus por favor não me incomode-obrigado não levai dês a mal. Adeus pessoal.