Vi o filme Vanilla Sky pela primeira vez há 12 anos no cinema . Era adolescente na altura, e percebi que tinha acabado de ver algo que ia ficar comigo muito tempo. Penso que na segunda vez que vi o filme é que me apercebi que aquele era provavelmente o meu filme preferido. Estava em casa, e ao ver a cena final, senti um nó na garganta como penso nunca ter sentido ao ver um filme. Parecia mesmo que aquela história se tinha passado comigo.
Sempre achei que o filme foi tratado injustamente por grande parte da crítica. Penso que um dos grandes problemas, se não o principal, foi o facto de ser um remake de um filme que tinha sido feito há apenas quatro anos atrás, Abre los Ojos, de Alejandro Amenábar, e ser, de facto, muito parecido a este. Mas, na minha opinião, e não menosprezando Abre los Ojos, que é um grande filme, Cameron Crowe, o realizador e argumentista de Vanilla Sky oferece-nos uma versão melhor do que aquela que tínhamos visto nas mãos de Amenábar. Na verdade, Cameron Crowe é o meu realizador preferido, tendo este sido o primeiro trabalho que vi dele. Almost Famous e Jerry Maguire, os dois anteriores filmes de Crowe, são outros dos meus filmes preferidos de sempre.
Quem não viu o filme, talvez seja melhor parar por aqui.
O que torna, na minha opinião, este filme tão especial? Este filme é, na sua essência, uma história de um amor trágico. O que para mim, o distingue dos demais é o “toque Crowe”. Cameron Crowe tem o dom de criar “momentos” nos seus filmes, e este não é exceção. Aquelas cenas que nos dão vontade de viver e não apenas existir. Aquelas cenas que nos tocam de uma forma que não sabemos bem explicar. “Momentos”!
Estamos diante de uma personagem, David (Tom Cruise) que tem tudo o que quer, dinheiro, mulheres, poder. E apesar de ter um grande amigo, falta-lhe o amor verdadeiro de uma mulher, o qual acaba por encontrar na forma da personagem Sofia (Penélope Cruz), mas depressa as suas ações o levam a perdê-lo. David e Sofia têm uma noite juntos em que percebem que estão provavelmente diante da sua alma gémea, e depois disso, David não resiste à tentação e acaba por destruir a sua vida e a possibilidade de uma vida ao lado de Sofia.
O engraçado é que neste filme podemos ver o “e se”. David, que foi sempre muito atormentado pelos sonhos (ou serão pesadelos?), descobre uma forma de viver ao lado do seu amor numa espécie de sonho acordado, “Lucid Dream”, como é apelidado no filme. Mas depois de muitas peripécias, o seu subconsciente não o deixa mais viver este sonho e acaba por acordar para a realidade, e perceber que a oportunidade que teve para experienciar o amor verdadeiro foi perdida por uma decisão errada tomada por si. “Every passing minute is another chance to turn it all around”, a frase que Sofia lhe disse na noite em que estiveram juntos e que David percebe da forma mais cruel. A cena final, em que David (acabado de descobrir tudo o que se passou) volta a reencontrar Sofia, não a real, porque por essa altura Sofiag morreu há muitos anos atrás, mas uma última criação da sua mente, é do mais angustiante que vi num filme. Diante do amor da sua vida, David percebe tudo o que perdeu e lembra-se daquela noite em que o amor verdadeiro foi possível. Cameron Crowe é brilhante nesta cena, apresentando-nos uma cenário magnífico no topo de um edifício debaixo de um céu fantástico inspirado no quadro de Monet, acompanhado de um tema brilhante dos Sigur Rós, que se adapta de forma perfeita à cena.
Para além do que já referi, há um sem número de coisas que me fazem adorar este filme e dizer que é o meu preferido. Para além do tema dos Sigur Rós a banda sonora é fantástica no seu todo. Há citações que ficam connosco muito depois de vermos o filme, pois aplicam-se à história de David, mas também à vida de todos nós: “the sweet is never as sweet without the sour”, “the little things, there”s nothing bigger”, para além da referida no parágrafo acima. Há uma ideia muito curiosa no filme, mas com a qual me identifico bastante, que é o facto de aquio que levamos desta vida, para além das pessoas que amámos e daquilo que vivemos, serem os filmes que vimos, as músicas que ouvimos.
Os que viram o filme talvez se identifiquem com o que escrevi aqui, e os que não viram, espero que se um dia o virem, gostem tanto dele como eu.
Acabo por aqui, porque lá fora há muitos “momentos” à minha espera. E à tua também!

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