Mário Soares disse que o governo deveria sair pelo próprio pé senão sairá pela violência. A esquerda disse que Soares estava a dizer o que pode acontecer, e não a apelar à violência.
Não! Soares não estava a fazer prognósticos, estava a apelar à violência. Quando se alerta que a não realização de uma determinada acção resultará em violência, está se a apelar à violência. Soares está zangado pelo país não ter enveredado pela violência aberta. Mário Soares até tem razão em muitas das críticas que faz ao governo, mas quando o país caminhava para o abismo, entre 2005-2011, manteve-se em silêncio absoluto. Era bom que Soares tivesse alertado para a situação que na altura se estava a formar, porque Soares é daquelas personalidades que quando fala as pessoas ouvem. Mas nunca o fez. Porquê? Porque quem estava no governo era o seu partido, e fizesse este o que fizesse, Soares nunca crítica os seus. Durante a governação socialista os impostos foram aumentados várias vezes, criou-se uma parte considerável das Parcerias Público Privadas, instituíram-se as rendas do sector da energia e endividou-se o país – ultrapassando os 100% do PIB – para se encomendarem mais auto-estradas, pontes, barragens e aeroportos às PPP. Perante isto, Soares nunca levantou nenhuma objecção ao governo ou a Sócrates. Aliás, a única vez em que se opôs a Sócrates foi por interesse pessoal, quando o seu filho João Soares concorreu à liderança do PS contra Sócrates. Até atacou ferozmente aqueles que criticavam o governo, como Medina Carreira, apelidando-o de catastrofista e profeta da desgraça.
Mário Soares é o pai da democracia portuguesa e colocou Portugal na CEE. Merece respeito por isso. Embora também contribuiu para definir a atitude de subserviência e falta de sentido crítico que Portugal tem na Europa, quando, na assinatura do tratado de adesão à CEE, declarou que da nossa parte não veriam cepticismo ou críticas à Comunidade Europeia. Em termos políticos, Soares é uma daquelas pessoas completamente tendenciosa e primária. Para Soares, em Portugal ou no mundo, um político de direita diga o que disser ou faça o que fizer, é mau político porque é de direita. Por outro lado, um político de esquerda diga o que disser ou faça o que fizer, é bom político porque é de esquerda. O político de direita até pode estar a governar bem, até pode estar a dar atenção a áreas da esquerda, como o social, mas para Mário Soares nada disso conta, porque é de direita, logo é mau. Enquanto um político de esquerda pode estar a governar da pior forma possível, a sua governação pode ser mais de direita do que de esquerda, mas para Mário Soares isso não interessa, é de esquerda é bom.
Esta falta de objectividade e imparcialidade de políticos, ex-políticos e comentadores políticos na análise dos mais variados assuntos político-económicos só serve para descredibilizar o debate político e consequentemente a democracia.

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