A última semana foi marcada por uma notícia que tem causado muita polêmica nos meios de comunicação social. A indignação é tanta e com direito a página de Facebook, em solidariedade para com o acusado, Hugo Ernano. Sem querer tomar partido de uma das partes e tecer mais comentários ao que já foi dito sobre a decisão dos juízes e a conduta do pai da vítima, chamo a atenção para algo relevante que ninguém se pronuncia. 80 mil euros pela vida de um filho? Eu li bem? É esse o valor que compensa a perda de uma criança?
Não sou mãe. Por enquanto, a maternidade não me veio bater à porta. O mais próximo que tenho experienciado é o amor pelos animais domésticos que acolho em casa. E se já assim a afeição que se ganha a cães e/ou gatos pesa na hora de os ver partir, imagino como será a dor de uns pais quando, precocemente, é-lhes tirado um filho. A dimensão da dor, ainda que inquantificável, fica cravada nos rostos e nas almas de quem a sente para toda a vida. Perante tal, pagará o dinheiro o justo valor pela perda de uma vida?
O Código Civil estipula a indemnização pecuniária, mas isto faz sentido quando se trata de bens. Com crianças e jovens o assunto muda de figura. Se fizermos as contas, 80 mil euros a dividir por 156 meses obtém-se o valor de 512,82 euros. Para muitas famílias, os encargos mensais com a saúde, a educação, a alimentação e o vestuário dos filhos ascende essa quantia. Já para não falar das consultas pré-natais e demais despesas relacionadas com o decurso da gravidez que aqui não foram contabilizadas. Mas falta o essencial. Como é que se indemniza o amor, o carinho, a simbiose que se estabelece ente mãe e filho, as aprendizagens e todos os momentos da sua existência?
Está na altura de deixarmos de ser hipócritas e revermos os nossos valores morais. Criticamos fortemente outras culturas por negociarem mulheres em troca de camelos ou por mães desesperadas venderem os seus filhos. Mas consentimos calar a dor, a mágoa, a raiva e a frustração, com dinheiro alheio. O amor por um filho nunca pode ser convertido numa unidade monetária. Quando isso acontece não é amor mas uma mera transacção. Perde-se um filho mas em troca dispõe-se de dinheiro suficiente para comprar um carro, um apartamento ou fazer uma viagem de sonho. E no final, valerá a pena ter uma choruda conta bancária, quando foram necessárias demasiadas lágrimas para a enriquecer?

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